Será o covid-19 que está a destruir a economia mundial?

A economia mundial está a entrar numa profunda crise. Mas afinal, esta crise foi causada pelo COVID-19? Se esta pergunta fosse feita a um político, a sua resposta seria um grande e redondo sim, afinal, não lhes dá jeito contar qual a principal causa desta crise, iriam arranjar um bode expiatório onde meter a culpa como aconteceu em 1929 e em 2008. Realmente o COVID-19 está a ter um real impacto, mas não foi o responsável por esta crise, mas sim, ajudou a que esta crise fosse antecipada, os reais culpados deste desastre económico são o FED (banco central americano) e o BCE (banco central europeu), devido a manipulação feita através das taxas de juros. Para conseguirmos entender porquê, vamos invocar a teoria austríaca dos ciclos económicos desenvolvida por F.A. Hayek e Ludwig Von Mises. Esta teoria explica ainda crises passadas como por exemplo a de 1929 ou a de 2008, mesmo não sendo muito conhecida devido ao legado deixado por Keynes por meter a culpa no capitalismo, mas infelizmente não viveu até os anos 70 em que o welfare state defendido por Keynes, colapsou totalmente.
Antes de começarmos a falar desta teoria austríaca temos que perceber alguns conceitos.

Bens de capital, bens de ordem superior e bens de consumo

Para conseguirmos perceber esta teoria temos que entender o que são bens de capital. Bens de capital são bens que não são usados no seu consumo direto, mas servem para produzir um bem que pode ser usado no consumo direto, exemplo, um garfo não é usado para ser consumido diretamente, mas serve para nós podermos consumir algo, a comida. A partir de aqui podemos ir mais além, dentro dos bens de capital podemos ter bens mais perto do consumo, como por exemplo bens de primeira ordem (bens de capital que produzem diretamente um bem de consumo) ou podemos ter bens de capital mais afastados dos bens de consumo (bens de capital que produzem outros bens de capital com o objetivo de produzir um bem de consumo). Com isto chegamos à última definição, bens de consumo, são bens que nós podemos utilizar para consumo direto como por exemplo alimentos.

Teoria austríaca dos ciclos económicos

Em primeiro lugar temos que entender algo, os indivíduos agem com o objetivo de passar de um estado de menor satisfação para um estado de maior satisfação. Esta ação realiza-se num determinado período de tempo e os nós tentamos sempre ter um maior grau de satisfação no menor período de tempo possível. Consequentemente, nós registamos preferências temporais, basicamente, se vamos poupar para gastar no futuro ou se vamos gastar atualmente no presente. Quando a população se torna mais poupadora dizemos que a preferência temporal “agregada” está mais baixa. Se a população se torna mais consumista, a preferência temporal “agregada” aumenta. Esta preferência temporal vai afetar a taxa de juros, se esta estiver mais baixa, a taxa de juros baixa conjuntamente, se esta se encontra mais elevada, a taxa de juros aumenta. Este simples mecanismo permite que haja uma coordenação entre o presente e o futuro permitida pela taxa de juros correspondente ás preferências temporais da população assim para dizer, mas porquê? Quando as pessoas poupam mais, permite que a taxa de juros baixe, quanto mais baixa for a taxa de juros maior é o incentivo para investidores apostarem na produção de bens de ordem superior, ou seja, que ocupam mais tempo, durante este tempo vivesse um período de crescimento económico sustentável, pessoas são empregadas, há um aumento na renda das pessoas, as máquinas que fazem parte do processo de produção são renovadas, tudo de bom acontece, quando os produtos finalmente acabam de ser produzidos, eles podem ser consumidos pelas pessoas uma vez que este crescimento económico foi baseado em poupança. Desta forma, podemos dizer que a taxa de juros é responsável por um equilíbrio parcial entre oferta e procura.

Oferta/procura

Antes de continuar eu queria dizer que sou um defensor da escola austríaca de economia, portanto não trabalho com modelos de equilíbrio, mas sim com modelos que tendem a um equilíbrio, logo quando eu uso o termos “equilíbrio” é um equilíbrio parcial.

Mas afinal, o que realmente faz com que existam crises económicas? Como nós já vimos, a taxa de juros permite uma coordenação entre oferta e procura, nós visualizamos a cima como o mercado funcionaria se existisse um padrão ouro, ou algo que não manipule a quantidade de moeda em circulação, mas na realidade, hoje já não existe padrão ouro uma vez que ele foi substituído por um sistema de reserva fracionária, devido à criação de bancos centrais, dando-lhes o poder de regular a quantidade de moeda existente no mercado e de terem o monopólio da moeda, podemos dizer que sofremos atualmente uma ditadura monetária especialmente com a criação do BCE (banco central europeu) e do FED (banco central americano). Então o que realmente aconteceu e porque estamos atualmente a viver uma possível crise económica, ou uma futura crise. Como nós já vimos, a taxa de juros permite uma coordenação entre oferta e procura, mas quando há uma manipulação na quantidade de moeda, ela deixa de permitir uma coordenação e causa o seu oposto, uma descoordenação entre oferta e procura.

Como os ciclos económicos acontecem?

Numa primeira fase o que acontece é que o banco central injeta dinheiro na economia com o objetivo de estimular a economia. Consequência disto as taxas de juros baixam permitindo mais investimento. Quanto mais baixa a taxa de juros mais indireta se torna a economia e maior a produção de bens mais complexos. Isto vai fazer com que as taxas de juros possam estar baixas mesmo não existindo uma poupança suficiente por parte da população. Devido a um aumento no investimento, os salários também aumenta, sendo gastos em mais consumo em bens atuais na economia. Logo, a diferença entre poupança e entre consumo aumenta, provocando uma descoordenação ainda maior nos .
Como o consumo presente aumenta, faz com que a indústria dos bens de consumo ou bens de ordem inferior (mais indiretos) pareçam mais viáveis de produzir, resultado de isto, vai haver uma disputa de crédito entre os produtores de mais de ordem superior e os bens de ordem inferior, fazendo com que a taxa de juros aumente e provoque assim uma diminuição na produção de bens de ordem superior para passarem a produzir bens de ordem inferior uma vez que a taxa de juros está mais alta. Este fenómeno pode ser chamado de efeito concertina.
Devido a esta redução artificial na taxa de juros, a última fase do ciclo antes do começo de um novo ciclo é a fase em que a economia afunda totalmente, empresas vão à falência, pessoas são desempregadas, salários são reduzidos, tudo o que é mau acontece, muitas vezes, os nossos governantes para se conseguirem eleger, acabam por baixar a taxa de juros de novo artificialmente permitindo que a economia continue a crescer e quanto mais e mais a taxa de juros for baixa artificialmente maior vai ser o descalabro económico. Mas afinal, como a economia se volta a recuperar? Como muitos austríacos antes de mim já disseram, o que permite uma coordenação entre oferta e procura é a taxa de juros, nesta altura existe a descoordenação total entre oferta e procura, podemos dizer, que a economia só volta a prosperar quando a oferta e procura encontra uma nova coordenação. Se fizermos uma divisão por fases seria algo assim:

Mas afinal, o que isto tem a ver com esta nova crise que está por vir? Tem tudo a ver, afinal se nó virmos as recentes atividades dos dois maiores bancos a nível mundial conseguimos entender o porquê desta crise, as taxas de juros europeias extremamente baixas, aliás o BCE e não só, até taxas de juros negativas permitia:

Também podemos reparar na taxa de juros americana, que, apesar de não estar negativa como a europeia, está artificialmente baixa:

 

Conseguimos perceber através deste gráfico a maneira como a taxa de juros americana tem oscilado ao longo dos anos. Até se falarmos na recente medida do FED de injetar 1,5 triliões de dólares na economia, pode afastar a crise a curto prazo, mas a longo prazo a crise vai ser muito pior do que seria atualmente.

Acho que há uma coisa que keynesianos e monetaristas ainda não conseguiram perceber, não é por imprimir dinheiro que se cria riqueza, afinal se fosse assim, nós atualmente não teríamos pobreza no mundo, esse dinheiro só tem valor ele poder alocar recursos, afinal, eu posso ter um trilião de euros, mas se eu não tiver algo com que eu posso gastar esse dinheiro, eu não tenho riqueza, tenho só um monte de papel.

Fontes:

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2019/10/15/juros-negativos-em-depositos-voluntarios-em-risco-soberano/

https://exame.abril.com.br/blog/sergio-vale/torcendo-por-uma-recessao-nos-eua-mas-na-hora-certa/

https://www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=60