Radicalização do Islão – Divisão

Recentemente ouvi uma menção ao 11 de setembro como o maior acontecimento desde a queda do muro de Berlim (apesar de eu ter em mim que o Brexit, visto no futuro, e especialmente a pandemia, vão mudar esta ordem) e depois de alguma pesquisa fiquei especialmente interessado no que levou alguém a cometer aquele crime. Apesar de constatar que muitos historiadores afirmam que o pecado original foi a divisão do médio oriente na, quase maçônica, reunião de Sykes e Picot, e  esta divisão é mesmo uma das fontes de maior fúria de Osama Bin Laden contra o ocidente, que se recusou a tratar a Arábia Saudita pelo seu nome moderno até morrer, sempre referindo-se à mesma por “Terra das Duas Mesquitas Sagradas”, não sigo a mesma linha de raciocínio e acho que os problemas precedem, mesmo que apenas em pouco, esse acontecimento.

Algo interessante sobre pegar num assunto aparentemente pequeno, como as motivações de Bin Laden, e fazer uma pesquisa é que vamo-nos interessando cada vez mais pelo assunto como um todo e acabamos por ir ao fundo. É por isso que antes de tudo vou fazer um pequeno resumo da história global, principalmente antes dos acontecimentos mais recentes tomarem existência, para contextualização de todos. A história do islão e da sua heterogeneidade é longa, complexa e com vários desvios, não penso por isso que conseguiria fazer um resumo, quero apenas começar por contextualizar alguns acontecimentos que não devem ser desprezados quando pensamos a questão inicial a que me proponho responder nesta série de artigos.

Tenciono abordar os diferentes aspectos do mundo islâmico e desconstruir alguns mitos que comummente o ocidente associa ao mesmo, e como tal é necessário abordar…

Maomé e divisão

Sabemos pouco sobre o jovem adulto Maomé, apenas que casou com uma viúva de 40 anos, teria algumas mulheres ao longo da sua vida, somente uma filha iria sobreviver até à vida adulta, Fatimah, e que todos os anos meditava numa montanha por algumas semanas. Foi em 610 DC, nessa mesma montanha, que o profeta vivenciou uma teofania e foi visitado pelo anjo Gabriel. Conta a lenda que Gabriel recitou uma mensagem de Deus, que Maomé decorou, e ao longo dos anos continuaria a visitar o “Rasoul”. Maomé então passaria essas mensagens aos seus seguidores, no que seria o Corão.

Maomé acabou por ter que sair de Meca e seguir para Medina, devido a perseguições religiosas, e passou boa parte dos próximos anos em guerras. Aquilo que muitos não sabem é que Muhammad, além de ser um líder religioso, também foi, na prática, um general. Não é de estranhar, aliás, que muitas passagens do Corão sejam tremendamente violentas e de apologia à guerra. O momento mais importante foi mesmo a conquista de Meca, em 625 DC, que marca de facto o começo do império.

Segundo Peirone

Maomé tomou (…) uma decisão grave: em Setembro de 622, abandonou furtivamente Meca e retirou-se para Iatrib (…) dando início à nova era, ou contagem dos anos, denominada Hégira (…). À sua chegada a Medina, Maomé deixou de ser simplesmente um homem religioso e tornou-se homem de Estado e político

Vale ressaltar que já existiam comunidades das duas religiões abraâmicas na península, que isso certamente ajudou Maomé a ganhar apoio inicial. A arábia era essencialmente habitada por clãs politeístas, que Maomé viria a unificar através da expansão da fé, portanto, foi importante para Maomé que existissem comunidades que já partilhavam o mesmo Deus.

Os problemas começam a surgir imediatamente após o desaparecimento de Maomé, que não apontou um sucessor específico, nem a forma como o fazer, então a decisão criou duas correntes completamente diferentes, os Sunismo, que colocava ênfase na elite do mundo islâmico, e que o califado deveria ser governado por um líder escolhido pela por essa mesma elite, e o Xiismo, que acreditava que apenas a Deus cabia a palavra sobre quem governar, e que isso apenas seria possível através de laços familiares com o profeta. O sunismo acabou por sair dominante na primeira disputa, como é até hoje, seja em expansão geográfica, como em número de seguidores, que representam 80% do mundo islâmico.

 

Apesar da divisão inicial, o mundo islâmico experimentou momentos de paz, ainda que com a instabilidade latente, até ao assassinato de Ali, primo de Maomé. Segundo as tradições sunitas os 4 primeiros Califas-  Abu Bakr, Omar, Uthman e, finalmente, Ali- são os Califas bem orientados. Califas que por terem sido próximos ao profeta foram bastante tolerantes e justos. Já para os Xiitas apenas Ali, primo e genro de Maomé, foi um líder legítimo, e quando ele foi assassinado por uma seita extremista que acreditava que Ali não seguia o Corão à letra, a divisão ficou definitivamente marcada, com uma cicatriz que divide o mundo islâmico até hoje.

 A distinção filosófica e teológica entre estas duas correntes não é algo palpável e que possa ser observado a olho nu, mas é justo dizer que elas se fundam exactamente numa diferença de jurisprudência. Os sunitas têm dividido a sua doutrina entre diferentes escolas de jurisprudência islâmica, ao passo que os  xiitas se têm divido entre diferentes seitas. No seu todo podemos catalogar os sunitas como aqueles que, além de acreditarem que o legítimo líder deva ser escolhido pela elite, vêm a lei sharia, assente na Suna, que depois do Corão deve ser fonte de inspiração, como a lei muçulmana a ser seguida. Os Xiitas têm a sua própria Suna e Hadith, a grande distinção é a sua inspiração, uma vez que os sunitas se baseiam na Suna de Abu Bakr, que conta os caminhos dos 3 primeiros Califas, e como já expliquei, os Xiitas rejeitam estes Califas.

 

 

A diferença entre os dois ramos é hoje mais marcada, com os sunitas a ter uma interpretação literal do Corão, e uma visão divina muito próxima de um Deus pessoal, sendo então as escrituras palavras divinas a seguir à letra. Já os Xiitas têm uma interpretação menos literal e mais baseadas nas interpretações clericais, parecido às Igrejas Cristãs actuais, ainda que bem distantes.

São estes os traços gerais que formam a divisão entre as correntes do islamismo e que jamais devem ser ignoradas. Mais para a frente, quando falarmos da divisão da arábia no pós I GM, veremos que os conflitos recentes estão profundamente marcados por esta divisão. Basta olharmos para as diferentes esferas de influência e as guerras proxy, o conflito e rivalidade do Irão, maior potência do Xiismo, e a Arábia Saudita, maior potência do Sunismo, é um reflexo desta mesma dicotomia. Sempre que os sauditas apoiam um grupo militar em algum país, o Irão depressa apoia grupos rivais, e vice versa. Os próprios conflitos no Iraque são um exemplo dos conflitos entre estas duas correntes, uma vez que o país é uma mistura de etnias, mas especialmente, tem dentro do seu território tanto sunitas, como xiitas. Toda esta confusão vai ser tratada em artigos posteriores, mas serviu este Addendum inicial para realçar as diferenças entre as duas, especialmente no que toca à tolerância.

Fronteiras do Iraque e as diferentes etnias e religiões
Fronteiras do Iraque e as diferentes etnias e religiões