A era de Ouro do Islão

A era de ouro

Talvez a relação que mais tem sido desprezada quando se fala de Islão, e da sua radicalização, é a ascensão e queda da liberdade de pensamento, e em especial a correlação da influência da filosofia aristotélica.

Não devemos menosprezar a influência que os filósofos e o seu pensamento tem na forma como as populações, e consequentemente os seus líderes, pensam. Por mais que a religião seja a mesma, a diferença que os pensadores alheios fazem da relação com o sagrado é importantíssima. A dicotomia Aristóteles e Platão tem sido constantemente menosprezada, mesmo que tenha sido esta que marca as consequentes passagens de tempos mais obscuros para os mais iluminados. Foi o estudo de Aristóteles, e consequente estudo de outros filósofos gregos, que cortou o silêncio da idade média, e foi a sua queda que marcou o ensurdecimento do mundo islâmico.

 

Nothing in Europe could hold a candle to what was going on in the Islamic world until about 1600

Dr. Jamil Ragep

Al-Ghazali

Um homem de seu nome Al-Ghazali é um dos protagonistas desta história, sendo o outro Al-Ma’mun,e mesmo que os dois tenham mais de 2 séculos entre si, são eles que marcam o início e o fim desta era de ouro. 

Foi o Califa al-Ma’mun, filho do anterior Califa, que introduziu o filósofo Aristóteles ao mundo islâmico, ele que tinha sido esquecido durante séculos. Al-Ma’mun conta que teve uma visão de Aristóteles num sonho, e percebendo a mensagem hierofânica, decidiu então que seria possível conciliar a razão com o religião, por isso, ordenou a tradução de textos gregos para o árabe.

Busto de Aristóteles
Busto de Aristóteles

Al-Ma’mun ordenou que manuscritos fossem recuperados aos sítios mais longínquos, da Mesopotâmia, à Ásia menor, e a Constantinopla. Em 830 D.C estabeleceu um centro de tradução em Baghdad, a “Casa do conhecimento”, que teria até um observatório. Baghdad ficou, aliás, conhecida como a cidade do conhecimento, e várias livrarias cobriam a cidade.

O director da “casa do conhecimento”, apontado pelo próprio al-Ma’mun, foi o matemático al-Khwarizmi, a quem creditamos o início da álgebra, nome que aliás vem do seu livro Al-jabr wa’l-muqabala, que ele escreveu reunindo fontes do grego, hindu e latim. Fora ele, judeus e cristãos viviam pacificamente na cidade e eram de extrema importância. Baghdad era um ponto estratégico, uma cidade comercial por definição, e o centro da intelectualidade. Um dos homens mais importantes dessa época foi Hunain ibn Ishaq, um cristão que traduziu várias obras do grego para o árabe. Os avanços foram imensos, a oftalmologia teve o seu início na casa do conhecimento, com Al-Haytham, assim como quase toda a medicina, como é exemplo o livro de Ibn Sina, que foi usado até ao séc XVII como a enciclopédia da medicina.

Esta era de iluminismo muçulmano durou do séc IX ao séc XI, durante esse período avanços fantásticos foram feitos na filosofia e a ciência, na altura inseparáveis, mas tudo chegou ao fim, porque? Porque rapidamente perceberam que as fundações do Corão eram incompatíveis com a razão aristotélica. O que nos leva a contar a história de Al-Ghazali, e a sua oposição à filosofia aristotélica.

Havia duas posições quanto a Aristóteles, a de al-Ma’mun e do filósofo Avicena, que assumiram uma posição de igual reverência a Aristóteles e Maomé, consideravam as duas visões como correctas, e a de Al-Ghazali, que considerava as duas visões como incompatíveis. O que afligia Al-Ghazali era que muitos filósofos estavam a interpretar de maneira errada a palavra do profeta em detrimento da razão, que para ele inevitavelmente levaria ao secularismo e à perda de fé. No seu livro, intitulado “A incoerência dos filósofos”, Al-Ghazali expõe, com maestria e completo domínio de lógica aristotélica, as fraquezas de juntar a razão aristotélica às palavras de Muhammad. Neste livro Al-Ghazali defende a  fé em Allah acima de tudo, apesar de também elogiar o trabalho de Aristóteles, e como quase todos na idade média continuou fiel à física aristotélica, mesmo que volta e meia se distanciasse para colocar ênfase na palavra do Corão.

Para Al-Ghazali as maiores inconsistências eram as seguintes

  1. Criação Divina
  2. Essência Divina
  3. Vontade Divina

Criação Divina

 Para Aristóteles o universo era eterno e baseou o seu argumento na causa primária

  1. “Since there must always be motion without intermission, there must necessarily be something eternal, whether one or many, that first imparts motion, and this first mover must be unmoved” 
  2. “eternal movement must be produced by something eternal.”
  3. “if there is always something of this nature, a mover that is itself unmoved and eternal, then that which is first moved by it must also be eternal.”

Em suma, tudo que se move é movido por algo, como a regressão ao infinito é ilógica, tem que existir uma causa primária, Deus. E de facto, se à olharmos para estrelas móveis, ou melhor, os planetas, vemos que Aristóteles tem razão, “the heaven as a whole neither came into being nor admits of destruction, but is one and eternal, with no end or beginning of its duration.”, e portanto nada podia contrariar as declarações de Aristóteles. Ora, tanto os seguidores de Aristóteles como Al-Ghazali partilhavam a fé de que o universo foi criado por Allah, mas Al-Ghazali perguntou- se o mundo é eterno, como pode ter sido criado?

Al-Ghazali argumentava que, na busca de conciliar a razão com a fé, os filósofos não tinham conseguido provar que o universo é eterno .

“They say that the world is caused, and that its cause is without beginning or end, and that this applies both to the effect and to the cause, and that, if the cause does not change, the effect cannot change either; upon this they build their proof of the impossibility of its beginning.”

Ele perguntou várias vezes como poderia um mundo eterno modificável ser compatível com um Deus imutável, e a sua resposta foi constantemente que tal não era possível. A visão aristotélica significava que o universo era criado do nada, mas por algo pré existente, já a visão neoplatónica, corroborada por Al-Ghazali, implicava que o mundo mundo surge eternamente da essência inesgotável de Deus.

Para Al-Ghazali, o mundo não podia ser eterno porque os planetas (estrelas móveis), tinham períodos de rotação diferente. Ora, se Júpiter demora mais tempo que Marte a dar uma volta à terra, isso significa que o infinito de voltas de Marte é maior que o infinito de voltas de Júpiter, logo, o mundo não poderia ser eterno, mas sim criado, não só o “espaço”, mas também o “tempo”

  1. Time is generated and created, and before it there was no time at all. The meaning of our words that God is prior to the world and to time is: He existed without the world and without time, then He existed and with Him there was the world and there was time
  2. If we say, for instance, that God existed without Jesus, and then He existed with Jesus, these words contain nothing but, first, the existence of an essence and the non-existence of an essence, then, the existence of two essences, and there is no need to assume here a third essence, namely, time.

E sim, Al-Ghazali acreditava em Cristo como um profeta de Deus, foi, aliás, umas das minhas maiores surpresas ao escavar este assunto, descobrir que Cristo era reverenciado no mundo islâmico da época.

Essência Divina

Depois Al-Ghazali focou-se na essência divina através das acções de Deus, em outras palavras. O primeiro motor aristotélico era o mesmo que Allah?Não, para Al-Ghazali os filósofos estavam também errados porque não percebiam as implicações da filosofia aristotélica na vontade divina, a metafísica aristotélica significava que Allah não teria vontade, nem escolha, mas teria criado por necessidade, o que era completamente incompatível com o Corão.

“Declare therefore openly that God has no act, so that it becomes clear that your belief is in opposition to the religion of Islam, and do not deceive by saying that God is the maker of the world and that the world is His work, for you use the words, but reject their real sense!”

Além disso reforça as diferenças entre o Deus Aristotélico e Allah quando afirma que Deus segundo o Corão é omnisciente, o que não acontece no Deus de Aristóteles, pois uma vez que não tem escolha, não tem sabedoria.

Vontade Divina

Encontradas as incongruências entre a metafísica aristotélica e a teologia Islâmica, Al-Ghazali foca agora no problema da causalidade aristotélica. 

Al-Ghazali percebe brilhantemente que se a manifestação divina fosse eterna, então as consequências dos seus actos seriam imutáveis, e como consequência o mundo seria estático e não teríamos livre arbítrio. Ele negou a conexão lógica entre causa e efeito 

“The connection between what is usually believed to be a cause and what is believed to be an effect is not a necessary connection; each of two things has its own individuality and is not the other.”

A razão pela qual Al-Ghazali negou esta propriedade, é porque ele queria salvaguardar a possibilidade de milagres. E assumiu que as implicações aristotélicas impedisse essa possibilidade

Consequências

Será difícil negar as consequências do trabalho de Al-Ghazali no percurso do mundo islâmico adiante. A sua crítica à filosofia e o enaltecimento da fé, e a consequente mudança do pensamento no mundo islâmico, foi o caminho inverso tomado no mundo ocidental, e as consequências foram também inversas.

No ocidente, São Tomás de Aquino abriu o caminho para mais filósofos gregos serem estudados, construindo o caminho da busca do conhecimento, e é também inegável que sem a influência árabe o ocidente não teria tido o renascimento nem o iluminismo. Tomás de Aquino que começou a era do pensamento foi fortemente influenciado por Averróis, um pensador islâmico, e as traduções do grego para o árabe e trabalhos da época foram amplamente estudados.

Já os árabes, influenciados pela crítica à razão por Al-Ghazali levaram o Islão de volta para as cavernas. Steven Weinberg afirma que, apesar de a ciência ainda ter continuado em alguns pontos do mundo islâmico, grande parte dos sunitas aceitaram os argumentos de Al-Ghazali e começaram um movimento de anti-racionalismo  “after al-Ghazali there was no more science worth mentioning in Islamic countries”

Esta posição continua até hoje bastante presente. Mohammed Yusuf, um líder religioso na Nigéria afirmou “We believe it is a creation of God rather than an evaporation caused by the sun that condenses and becomes rain.

Quando analisamos os dados hoje vemos algo muito distante do racionalismo do iluminismo e da era de ouro do islão, e muito próximo da teologia de Al-Ghazali. A sociedade islâmica é hoje completamente aprisionada às amarras da fé e sem qualquer resquício da curiosidade que outrora teve. Friamente falando, apenas 1.1% dos trabalhos científicos são publicados por árabes, mesmo estes compondo 6% da população mundial  2003 Arab Human Development Report , Um estudo confirmou que um ano os EUA publicam 10 mil estudos citados constantemente, os países árabes apenas 4.

Conclusão

Estas conclusões não se manifestam apenas na ciência… O fanatismo religioso, e lembrem-se que eu me propus responder à questão da sua origem, está directamente ligado ao afastamento da razão. Uma sociedade que não pensa filosoficamente (onde incluo todas as formas de conhecer o mundo), é uma sociedade que facilmente é levada para o fanatismo religioso. Também as sociedades cristãs foram extremamente radicalizadas,também as sociedades cristãs cometeram os mais inúmeros crimes em nome do senhor, também as sociedades cristãs foram cegas do mundo ao redor, mas o caminho que nós levamos mostra que essa separação é possível. Contrariamente, o caminho levado pelos árabes mostra exactamente que afastar a sociedade da razão e da curiosidade leva por caminhos desastrosos. Os dogmas associados à religião não são eles tão diferentes de dogmas políticos, do que não se pode discutir, o politicamente correcto que escolhe os indiscutíveis. Não pensem que por não serem religiosos, não serão doutra forma fanáticos.