O Capitalismo e a Natureza humana

Natureza humana

Já em séculos passados, enquanto a imperfeição humana e a sua propensão para a mesma era discutida, surgiu um tema paralelo – a natureza humana. Dentro de várias conclusões e teorias saliento três: a resposta empirista, o pessimismo hobbesiano e o otimismo de Rousseau. A resposta empirista de Hume e John Locke, embora as diferenças nas suas abordagens, partem da mesma ideia. Seguindo o ideal empirista, foi defendido que o Homem é equiparado a uma “tábua rasa”, assim, aplicando ao tópico apresentado, os comportamentos estão exclusivamente ligados à experiência e impulsos naturais. Logo, não existe uma natureza exacta e predefinida na conduta humana, a nossa conduta é influenciada pela experiência, emoções e necessidades. Isto aliado aos direitos naturais do homem, de acordo com Locke, fornece uma visão de otimismo e de virtude. Em contraste, Hobbes reflecte no livro “Leviatã” o seu pessimismo. Neste, apresenta um contrato social onde o Homem, como ser egoísta e desordeiro, necessita de uma autoridade capaz de evitar o que o autor denomina de “guerra de todos contra todos” (1) ;(2) , onde o Homem abdica de liberdades e direitos em detrimento da segurança providenciada pela autoridade, demonstrando assim uma visão incapaz de confiar no discernimento e individualidade do Homem. Pelo contrário, encontrava-se Rousseau que numa simples frase, ainda recordada por muitos, demonstra um otimismo perante o estado natural do homem, mas, em contraste, uma imensa desilusão pelo papel do Homem e da sociedade ao corromper este ciclo – “O Homem nasce bom, mas a sociedade corrompe-o.”.

Apesar das suas claras diferenças em princípios e ideias, a ideia unânime é a de que o homem está sujeito à imperfeição e, naturalmente, ao erro, seja por natureza ou por desenvolvimento humano, individual ou colectivo.

Livre Mercado

Como já foi explicado, o erro é inerente ao ser humano, então, nenhum sistema vai ser 100% perfeito. Mas aquilo que distingue o capitalismo dos outros sistemas é o impacto deste erro, ou melhor, a sua distribuição. Vejamos porque:

Num sistema capitalista de livre mercado, as decisões são tomadas por todos os indivíduos, nenhum player tem o poder de influenciar o mercado com uma única acção. Quando os indivíduos escolhem os produtos enviam uma informação aos produtores. Quanto maior procura, maior o preço. Todos nós temos uma escala de valores que atribuímos a cada produto, o nosso preço de reserva para cada produto, ou seja, o preço máximo a que estamos dispostos a comprar, e todos o vendedores têm o seu preço de reserva, o preço mínimo a que estão dispostos a vender. Numa troca, o valor do preço que entregamos é sempre inferior ao preço que recebemos, ou no mínimo, igual. Quando compramos pão por 1,30€, isso significa que o nosso preço de reserva é, no mínimo 1,30€, e do vendedor é, no máximo, 1,30€. O preço é, portanto, resultado das acções de troca no mercado e apresentam uma informação. O preço não é uma igualdade dos preços de reserva, porque como vimos, o do comprador é superior, e o do vendedor é inferior, é no contrário, o resultado dos diferentes preços de reserva. Mesmo o empresário mais rico, inescrupuloso e ganancioso tem que ter em conta as decisões dos compradores. Se os seus preços estiverem muito altos, ele corre o risco de sofrer um golpe de entrada de concorrentes com preços competitivos. 

O preço, portanto, apresenta nele contido toda a informação de todas as trocas de mercado num processo de evolução constante. Como já foi dito, quando o preço é demasiado alto em relação ao preço de custo, isso apresenta uma informação ao empreendedor, que existe procura em demasia e, portanto, uma possibilidade de negócio. Se for assumido que não existem barreiras à entrada podemos pressupor que, num mercado com preço demasiado alto, surjam vários competidores a tentar lucrar com preços mais baixos. O sistema de preços é, aliás, o sistema mais democrático que existe, uma vez que ao comprar, ou não, um produto, todos enviamos uma informação ao mercado. Quando conjugamos vários mercados isto é ainda mais visível. Podemos escolher os produtos que queremos, e os que não queremos, e assim enviar a informação.

Mas, onde entra o erro humano? O livre mercado é feito de trocas voluntárias entre seres humanos e, como já vimos, o erro é inerente ao ser humano. É portanto natural que o livre mercado tenha os seus problemas. Indivíduos vão cometer erros, falir e empregos perdidos, mas como disse, é um processo de evolução constante.

Sobre esta evolução constante, Hayek escreve

O sistema de preços é apenas uma daquelas formações que o homem aprendeu a usar (embora ele ainda esteja muito longe de ter aprendido a fazer o melhor uso dele) depois de ter tropeçado sem entender. Por meio dela, não apenas uma divisão do trabalho, mas também uma utilização coordenada de recursos baseada em um conhecimento igualmente dividido tornou-se possível.

A diferença do livre mercado para os outros sistemas é como o erro é distribuído. No livre mercado todas as trocas são igualmente importantes e enviam informações, no caso de um erro nessa troca ter ocorrido apenas os intervenientes vão sofrer as consequências ou ,no máximo, algumas pessoas serão afectadas em efeito dominó. Ou seja, o erro fica restrito a uma área muito específica. Mesmo que um indivíduo cometa um erro, os outros todos não o farão, e se o fizerem, aprenderão. Isso implica que os erros vão ser vários, sim, mas dispersos, e muitas vezes perdidos no sistema, porque todos tomamos decisões, e existem várias decisões a ser tomadas ao mesmo tempo.

Neste sistema, aquilo que sustenta a economia somos todos nós, consumidores, que damos uma informação quando compramos, ou não. Isso significa que mesmo que algum empresário, alguém do topo, cometa um erro crasso, o seu erro fica confinado ao seu espaço de influência, e significa uma oportunidade de negócio para outros. A estrutura funciona como uma pirâmide, com todos os consumidores na base, e lembro que a base somos todos nós trabalhadores e empresários, porque todos somos consumidores. Numa pirâmide, estrutura estável, mesmo que rajadas de vento a façam abanar, como um erro dum super empresário que vai à falência, a estrutura é segura, já que o seu erro apenas alcança a sua influência.

Num sistema centralizado, por mais democrático que possa ser, não existe sistemas de preços, como tal, não existe informação e não há forma de saber onde há escassez e onde há oferta em demasia e não espaço para a inovação. O sistema de livre mercado que permite competição de preços também incentiva a inovação, uma empresa tem que competir para ter preços mais baixos que os seus competidores. Num sistema centralizado, sem preços, não existe a informação sobre eficiência, que é traduzida num preço. Muitas vezes a procura nem é assim tanta, mas má organização e tecnologia pouco útil resultam numa produção muito cara e pouco eficiente,reflectindo-se no preço. Um empreendedor tem o incentivo para se optimizar sempre!

Ou seja, um sistema centralizado não é um sistema dinâmico que muda a toda a hora com as preferências do consumidor e obriga os empresários a lutar por eles. Todas as decisões são tomadas por um comité, ou seja, toda a pirâmide é controlada por apenas um grupo específico de pessoas e por uma solução. Não existe competição de decisões, tudo é controlado por um grupo específico de pessoas. Mesmo que consideremos um sistema comunista perfeito, onde tudo é eleito democraticamente, ainda aí não existe competição de soluções. Democraticamente vai ser escolhida apenas uma decisão para determinado assunto e, portanto, toda a economia dum mercado vai estar assente numa decisão. A base da pirâmide que falei à pouco não são só as pessoas, são as decisões. Existem milhares de decisões diferentes a acontecer, contrário a um sistema centralizado onde existe apenas uma e, como tal, basta um pequeno erro para deitar a pirâmide abaixo, porque ela é sustentada por apenas um ponto.

Conclusões

Em suma, o livre-mercado, na sua íntegra, não tem “personalidade”, é um mecanismo natural e um ideal pressuposto na natureza humana. Seja por interesse, egoísmo ou busca por algo, este sistema de trocas voluntárias permite-nos ascender ao que almejamos. Mas aqui é que se distingue o mito da realidade, o mecanismo não tem restrições quanto ao comportamento humano, o livre-mercado fornece as oportunidades, morais ou imorais, mas cabe sempre ao ser humano o poder de decisão. A viabilidade ou inviabilidade do mesmo dá-se pelo comportamento geral da sociedade, não pelo mecanismo em si. Seria como dizer que quando nos é servida uma refeição mal preparada, a culpa era dos utensílios e/ou alimentos, invés do indivíduo que a preparou. Como anteriormente referido, o sistema não é perfeito, mas é o único que possibilita a autodeterminação e liberdade de um indivíduo de buscar os seus interesses.

O ponto deste ensaio é de que não podemos culpar certos erros do livre mercado no sistema em si, mas nas pessoas, que não são perfeitas, e demoram tempo e erros para aprender. Temos é que perceber que o capitalismo permite a competição de ideias, e como tal perceber quem errou e quem acertou, coisa que não é possível perceber sem esta competição. Agostinho da Silva, melhor que nenhum outro português, diria

Nós estamos todos envolvidos numa guerra, a guerra contra a carência… E, então, isso só poderá acabar, como quando nas outras guerras, abatermos completamente o inimigo. E parece que não há nenhuma outra forma de economia que consiga levar a esse fim, senão esta economia competitiva.