Pelo menos as prostitutas dizem ao que vêm

Esta semana saíram os valores dos apoios do Estado aos OCS. Devido à queda nas receitas patrocinada pelo COVID-19, o Estado achou por bem utilizar dinheiro público, uma forma carinhosa de tratar o nosso dinheiro, para apoiar os órgãos de comunicação social. Tal ajuda é feita através da compra de publicidade, e a verba destinada a este apoio é de 15.000.000€, sendo que 25% se destinam exclusivamente a órgãos de comunicação regionais e locais.

 

Em primeiro lugar, analisaremos a distribuição dos 75% (11.250.000€) destinados aos órgãos de comunicação social nacional. A imagem vem ilustrada com os jornais e canais de televisão detidos pela empresa descrita.

 

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(retirada do Twitter, @RuiCarneiro18)

 

Em primeiro lugar, destaco a Impresa (SIC e Expresso), que com a modesta quantia de 3.491.520,32€, ocupa a primeira posição no ranking dos OCS mais ajudados pelo contribuinte. Se à Impresa juntarmos o Grupo Média Capital (TVI, Rádio Comercial e M80) e a Cofina (Correio da Manhã e amigos) obtemos então uma quantia de 8.525.060,07€ – mais de metade do valor do apoio total disponibilizado pelo Estado para todos os OCS.

 

Ora, aqui surge a primeira pergunta: afinal, quais os critérios aplicados para a distribuição do dinheiro do povo? À primeira vista poderíamos dizer que era pelo número de audiências, uma vez que os canais generalistas, TVI e SIC, são os mais ajudados. Será pelas audiências? Ou será pela quebra nas receitas? Bem…

 

Não faço a mais pequena ideia. Infelizmente o nosso querido governo socialista já nos disse quanto do nosso dinheiro ia gastar, e até foi simpático ao ponto de dizer onde exatamente o ia gastar (vamos ignorar os órgãos de comunicação regionais e locais), mas no documento não vem a explicar o porquê da diferente “aquisição de publicidade” para cada empresa. Como o PS já nos habituou, vamos limitar-nos às suposições.

 

Depois, e a principal razão do meu descontentamento com esta medida, é a minha falta de ingenuidade, que não me permite acreditar que uma imprensa subsidiada pelo Estado possa ser independente e credível. Na verdade a lógica é muito simples:

 

Quando somos adolescentes, começamos a receber uma mesada, ou os nossos pais dão-nos dinheiro quando é preciso comprar qualquer coisa ou ir beber um copo com os amigos. É simples, eles sustentam-nos, vivemos em casa deles, comemos a comida que eles compram, e sem eles não sobrevivemos. É assim, cada família é como é, mas eu falo pela minha experiência: se eu atacasse a minha mãe só Deus me podia ajudar – e eu sou agnóstico. Acho que estão a perceber onde quero chegar.

 

Nesta analogia manhosa, eu sou os OCS e a minha mãe é o Estado. Quem paga manda, é tão simples como isto, e acreditar que alguém vai (ou sequer pode) atacar a entidade que o sustenta é de uma ingenuidade e irresponsabilidade tremenda. Como é que se vai confiar em jornais que são sustentados pelo Estado?

 

Nesta nota, deixo uma palavra ao ECO e ao Observador, que rejeitaram o seu “apoio” – curiosamente, em ambos os casos, os critérios misteriosos que não se sabe quais são, levaram a que estas duas entidades fossem as duas mais mal pagas.

 

Isto é, claro, até o governo vir dizer que se enganou e que a verba para o Observador não era de 19 mas sim de 90 mil euros. Ah, porreiro. Facto curioso: o valor acordado para os apoios é de 15.000.000€, como já referi. Eu dei-me ao trabalho de fazer as contas (hoje em dia nunca se sabe, o CR7 das finanças parece mais o Hélder Postiga) e os valores da tabela somados dão de facto os 75% (11.500.000€) do valor definido pelo Estado. Ou seja, se o valor do Observador é de 90 mil em vez de 19 mil, e a % para OCS nacionais se mantém nos 75%, os 15.000.000€ definidos pelo Estado passaram para 15.428.000€? O montante “em falta” será subtraído do montante oferecido a outro OCS?

 

Ninguém sabe. Temos um governo que distribui 15 milhões de euros de dinheiro dos contribuintes, com um critério que ninguém sabe qual é, e que, para além disso, lembrou-se que dentro desses 15 milhões um dos valores está mal colocado, fazendo com que ou haja outro valor mal colocado, ou o montante total do apoio do Estado ascenda a mais de 15 milhões de euros.

 

Como cereja no topo do bolo, quero relembrar que para além destes 15 milhões, houve várias empresas dentro das ajudadas que recorreram ao lay-off – sim, aquelas três (Impresa, Grupo Média Capital e Cofina) que levaram mais de metade do bolo recorreram ao lay-off. Ou seja, não chegou o apoio do Estado para garantir que não tinham que recorrer ao despedimento, ainda levam mais um apoio, tudo claro pago pelo contribuinte.

 

A verdade é que daqui a uns tempos isto cai no esquecimento, e daqui a uns meses já ninguém se lembra que a maior parte da comunicação social (viva o Observador e o ECO!) é sustentada pelo Estado. Entretanto se calhar as notícias dos escândalos de corrupção e favores a amigos vão diminuindo, investigações são adiadas para quando dá jeito (nunca esquecer o Sexta às 9, da querida televisão do Estado, a RTP, que só achou melhor mostrar os escândalos do lítio após as eleições) e os colunistas mais “barulhentos” vão sendo afastados – o André Ventura que o diga que já foi corrido do CM.

 

A minha primeira ideia para o título disto quando escrevi era “a prostituição da comunicação social portuguesa”, mas senti que estava a ser demasiado agressivo – ao menos as prostitutas dizem ao que vêm.