Liberdade é Discordar, Liberdade é Errar

Muito se fala de liberdade, a maior parte das vezes associada a uma estrutura, normalmente política e normalmente associado à democracia, mas a liberdade não é isso, ou não é só isso. Claro, o fator estrutural é importante e até determinístico para o debate, mas per si ele não garante a liberdade. Existem pessoas “livres” que nunca foram livres de verdade ou que se escravizaram por vontade própria, seja por medo, ansiedade, obsessão. Estas pessoas são materialmente livres mas voluntariamente entraram numa masmorra e hoje não conseguem sair.

Mais do que responsabilidade, como o lema da plataforma afirma, mais do que responsabilidade, como o lema da plataforma afirma, liberdade implica coragem. Coragem de errar, coragem de discordar, coragem de ser ou pelo menos tentar ser feliz. Porque a liberdade de apenas acertar é fácil é demagoga, é cobarde. Embora agradável é contraprodutiva.

Porque viver é errar, não existe uma verdade fundamental absoluta que nos guie e que nos diga o que fazer, e tudo o que construímos é fruto de todos os nossos erros e dos nossos antepassados. Quantas vezes teve Da Vinci teve de errar para atingir a “perfeição” das suas obras? Ser livre para dizer aquilo que se têm como correto não têm valor algum. É do caos que surge a ordem, mas se vivermos dominados por uma ordem confortável podemos estar sujeitos a totalitarismos a qualquer nível. A ordem sem caos deixa-nos refém de um totalitarismo que nos prende ao que é seguro e nos impede de viver.

É preciso discordar! Primeiro, porque não existe verdade absoluta (Pelo menos fora dos nossos construtos e da lógica humana criada a partir de uma racionalidade limitada) e porque a ciência está em constante evolução.
A liberdade de apenas acertar, de apenas fazer o certo retira toda a componente moral sobre o valor de fazer o bem. Que valor o bem têm se não tivermos  hipótese de fazer o mal? É a escolha entre seguir o bem e o mal que atribuí uma carga positiva a um e negativa a outro. Eu ser obrigado a fazer o bem, a praticar o certo e ser correto (Não estou a invalidar que tomar decisões erradas tenham a devida responsabilidade como mencionado acima) retira todo o valor sobre está atitude ética ou moral, eu não preciso de refletir sobre essa ação, eu fui obrigado a  praticar tal ação. Não há um esforço embutido. Todos os dias eu sou confrontado com a possibilidade de fazer mal, de enganar, roubar, etc. Viveria melhor se o fizesse, porque não o faço? Tirando o aspecto utilitário que deve apenas ser associado a crimes, eu não o faço porque considero fazer o bem o correto. E é isso que dá valor ao bem, ao certo. Sendo seres imperfeitos? é a possibilidade de errar que dá valor aos nossos acertos.

Não devemos ter medo de errar, desde que estejamos dispostos a aprender e nos mantenhamos fiéis aos nossos princípios.

Para ser livre é preciso ter-se coragem para errar, para discordar, para seguirmos os nossos princípios e para irmos atrás da nossa felicidade. Porque é disso que se trata a liberdade, ser feliz, procurar ser feliz. Nada nos garante que vamos alcançar essa felicidade ou que essa felicidade sequer existe, mas a liberdade é a luz ao fundo do túnel, a réstia de esperança que resiste na dúvida, na incerteza. Se estivermos apegados a filosofias deterministas abraçamos uma ideia confortável de que não tivemos culpa, as coisas tinham de ser daquele jeito, não havia nada que podia ou que pode ser feito, a culpa é da sociedade e tantas outras desculpas confortáveis que justificam a inação, a cobardia, o medo de errar. Talvez a liberdade não tenha sido feita para estas pessoas, ou talvez ainda não se tenham deparado com a crise de se viver na dúvida do “e se fosse tudo diferente?”.

Acima de tudo é preciso coragem para aguentar a responsabilidade da liberdade, sem medo de errar.