Se não for o Estado é outra gangue

Vivemos num mundo onde acreditamos que a nossa opinião importa e sentimos o dever de comentar. Achamos que estamos sempre certos mesmo quando não entendemos nada do assunto. Este paradigma criou uma mentalidade grupal arrogante, agressiva e, na maioria das vezes, não informada o suficiente.
Esta mentalidade é um obstáculo. Não só ao libertarianismo, como ao debate de ideias.

Mas olha bem: se o Estado acabasse hoje, seria rápido até surgir uma gangue que controlasse o povo e o subvertesse, sou muito inteligente ehehe

O problema deste exemplo parafraseado de várias pessoas que procuram “refutar” o anarcocapitalismo, é que ele demonstra de caras que não conhece o libertarianismo, o movimento libertário e as suas implicações.

É fácil estar certo quando tu não tens em consideração os pressupostos das ideias que estás a discutir. Refutar o Marxismo desconsiderando a ética marxista e os seus pressupostos é fácil, é só teres em consideração os pressupostos das tuas ideias e dentro deles o marxismo foi refutado, mas isso não chega.

Quando se usa este argumento, parte-se do pressuposto de que o Anarcocapitalismo é uma ideologia, e não uma doutrina, como todas as ideologias que essa pessoa possa defender. Parte-se da ideia de que o anarcocapitalismo, tal como o fascismo, o socialismo, ou qualquer outra ideologia, é um fim e não um meio, é uma realidade positivada, um sistema, um lugar fixo (o famoso ancapistão), e aí fica fácil aplicar críticas mascaradas de um suposto pragmatismo, achando que se tem algo a dizer ou sequer se está a dizer algo.

Mas não é. O anarcocapitalismo não é uma ideologia (embora algumas pessoas achem que sim baseadas no utilitarismo da liberdade, mas estes resultados não são absolutos e dependem de outros fatores), a proposta libertária é uma doutrina consubstanciada numa ética objetiva (nem todas as éticas são objetivas como erroneamente frequente se diz).

O movimento libertário propõe uma mudança cultural que integre a ética libertária e uma visão mais libertária na moral dominante. Só assim pode viver a liberdade.  

É óbvio que se o Estado acabar AGORA, com este mindset, que surgiria uma gangue semelhante no meio do caos. Porque o movimento libertário não é um fim e sim um caminho. Para a liberdade funcionar, é preciso uma cultura onde as pessoas querem liberdade e estão dispostas a colaborar para se conseguirem organizar em torno da liberdade.

O objetivo final do libertarianismo não é acabar com o Estado, esse é apenas mais um obstáculo a derrubar. O objetivo é acabar com agressões como um sistema de resolução problemas. É fazer entender que a não-agressão é a forma correta de se viver em sociedade, e criar meios e instituições que nos permitam alcançar esse objetivo.

Um exemplo disso é a bitcoin. O facto de por si só existir uma moeda privada já é algo incrível, assim como o poder que isso retira ao Estado, na medida em que o impede de roubar parte do teu rendimento e das tuas transações, e que o impede de fazer a sua política monetária e financeira, não te deixando refém das crises e dos ciclos monetários criados por estas.
Em suma, a liberdade deve ser vista como um caminho e não como um fim.