A censura do PS e os justiceiros sociais

A capacidade alguns autores de conseguir prever e avisar sobre o futuro não deve ser desprezada. A literatura, a boa literatura, oferece uma viagem às ciências humanas, um laboratório controlado e pormenorizado do que nos propomos navegar. É cada vez mais óbvio que a distopia de Orwell em 1984 não está tão longe da realidade como gostaríamos de imaginar. É, aliás, algo curioso, conseguimos várias vezes na história da humanidade alcançar distopias antes propostas, pelo que por definição deixam de ser distopias para ser um perigo real. A obra de Orwell, pelo engenho e obra do autor, sempre foi acompanhada de mais cautela. Orwell viu aquilo que mais ninguém viu, mas descreveu o seu resultado de forma tão palpável e meticulosa que qualquer pessoa consegue ver que, principalmente atentando já no clima e evolução da sociedade da época, tal destino encurta-se a largos passos.

man standing while holding burning book

A importância da liberdade de expressão para o bom funcionamento da sociedade é conhecida por todos. já as motivações que levam certas tribos a querer reprimi-la, para isso dilatando o estado e os seus tentáculos, são muitas vezes obscuras e outras vezes ingénuas. Não temo em apontar o dedo ao governo, em especial a ministra responsável, como grandessíssimos oportunistas. O país esqueceu-se, mas estamos em estado de calamidade, oportuno momento para estas vis actividades que, passando despercebidas devido ao alvoroço dos novos tempos, depois nos apertam as goelas com as patas de opressão. Não temo também em dizer que, ainda que para descontentamento de alguma direita trauliteira, há certamente boa gente naquele grupo de tresloucados foucaultianos, aqueles que pensam agir de boa fé. É nesses que me foco, nesses e naqueles que, já sabendo da bestialidade em questão, não percebem a sua tamanha importância.

A liberdade de ser ofendido

O psicólogo canadense Jordan Peterson, ficou conhecido no mundo quando se insurgiu contra a lei C-16 do Canadá, por motivos diferentes, que alguns consideraram mais fúteis, no entanto igualmente importantes. Jordan argumentou, numa fatídica entrevista para o Channel 4 (fatídica para a entrevistadora que passou uma tremenda vergonha), que quando descobrimos o mundo arriscamos ofender alguém. Quando pensamos e comunicamos arriscamos sempre ofender alguém. Aliás, grandes descobertas foram sempre ofensivas para alguém. Muitos padres certamente se sentiram ofendidos quando a teoria de Darwin foi proposta. A liberdade de expressão é, antes de tudo, a liberdade de dizer a verdade. É o contrato mais antigo que existe, a verdade… Sempre que temos uma conversa está subjacente que vamos dizer a verdade, é a nossa obrigação moral dizer aquilo que pensamos ser verdade. No entanto, a verdade, ou a sua descoberta, exige tropeços. Exige que se cometam erros, se debata para perceber esses erros, e como consequência se ofenda alguém. É impossível termos este debate de ideias sem a possibilidade da ofensa, afinal, qual o limite? O humorista português Ricardo Araújo Pereira contou uma vez que quando a Rádio Comercial publicou uma foto a dizer “BOM DIA!!!!” uma pessoa ficou ofendida. Talvez o dia lhe tenha corrido mal… É impossível saber o passado de cada pessoa para não ofender. É claro que podemos, e devemos, tentar não ofender as poucas pessoas com quem conversamos. Perceber que se estamos a falar com uma pessoa que nos diz “prefiro que não falemos de acidentes de carro”, essa pessoa teve provavelmente uma experiência traumática. Respeitar a opção desta pessoa, com quem estamos por opção, é apenas ser uma boa pessoa. Já deixar de exprimir o que pensamos na procura do conhecimento é algo completamente distinto. Deixar de dar a nossa opinião só porque “alguém, algures no mundo” vai ficar ofendido é uma ofensa a nós mesmos, ao nosso raciocínio.

É fácil ficarmos revoltados com aquelas pessoas que nos querem silenciar, e têm razão aqueles que se revoltam, como aliás expliquei porque. Mas não podemos cair no erro de prejudicar ainda mais a nossa luta quando irracionalmente nos deixamos comandar pela fúria. Se não ouvirmos o outro lado, por mais ridículo que possa parecer, não conseguimos convencer ninguém de coisa nenhuma. Insultando, instigando o ódio e virando as costas conseguimos apenas alimentar mais ainda a disputa. Não se enganem, haverá certamente gente que, ingenuamente, de facto pensa que proibir o discurso de ódio é uma solução para os problemas do mundo. Se no passado o perigo era a paz nacional, hoje são os transfóbicos. Se antes eram os comunistas ou os capitalistas, dependendo da geografia, hoje são os racistas. Se antes eram os pecadores, as bruxas e os hereges. Hoje são os homofóbicos, os xenófobos e os intolerantes.

Talvez porque muitas das mesmas pessoas que estão contra estas leis draconianas são religiosas, ou associadas, e aqueles que são a favor tendem a ver na religião o principal  precursor do pensamento retrógrado, temos então a ideia de que os primeiros estão próximos da inquisição e estão os outros mais afastado. Não se enganem, os dogmas quase religiosos daqueles que querem controlar o discurso são muito parecidos, mais do que se imagina à primeira vista. Hoje, é discurso de ódio falar sobre homossexualidade, tal como outrora, apenas muda o que se proibe. Se antes os negros eram subjugados aos europeus, hoje o welfare state prende os negros a um ciclo de pobreza e são hereges aqueles que ousam discordar. Hoje, um homem que aborda uma mulher na rua, que a tenta beijar numa festa ou olha por demasiado tempo para uma mulher é um assediador passível de criminoso. Diriam alguns, 500 anos atrás, que se estava a desrespeitar a honra da senhorita. Eu, por exemplo, ouvi várias vezes da minha avó como o estado novo era machista, como separava a mulher dos homens nas salas de aula, nos transportes etc todo um tratamento diferente. Hoje, no Brasil, as feministas festejam que a câmara de São Paulo aprovou uma lei que define carruagens específicas no metro para mulheres.

Os dogmas associados à religião não são eles tão diferentes de dogmas políticos, do que não se pode discutir, do politicamente correcto que escolhe os indiscutíveis. Não pensem que por não serem religiosos, não serão doutra forma fanáticos.

O perigo

Mais do que a importância evidente da liberdade de expressão, também é importante perceber o perigo que significa um conceito tão abstrato como “discurso de ódio”. É todo ele tão intangível que é impossível colocar uma definição. Achar que conseguimos definir aquilo que é ou não ofensivo, que é ou não odioso, algo que por definição é subjectivo, é nada mais do que a pretensão do conhecimento, ou pretensão da ignorância dos outros.

Quando um governo, disfarçando os seus reais motivos para apelar aos ingénuos, diz que vai controlar o “mau discurso”, aquele que corrompe a ordem social, aquele que ofende algo, aquele que é errado, nada mais está a dizer do que “eu vou controlar o discurso, especialmente aquele que, caindo nos meus termos arbitrários, é contra o meu poder”. Todas as ditaduras, sejam elas de esquerda ou de direita, fazem uso dessa artimanha. Para alguns foi o perigo do imperialismo americano, para outros é o perigo do racismo. Ninguém duvida que são erradas as práticas de bullying nas redes sociais direcionadas a indivíduos de certa etnia. Repito, a grande massa populacional despreza esses comentários tanto como qualquer justiceiro social, mas percebem também o quanto é errado controlar o discurso, qualquer que ele seja, e mais importante, percebem o seu perigo nesta esfera.

A internet permitiu que certas pessoas digam coisas que não seriam permitidas em muitos espaços sociais e essa liberdade, como aliás é qualquer liberdade, vem com um preço. A liberdade é comprada como moeda de troca pela segurança.  Até ao dia de hoje, o governo não tem mão em qualquer discurso pessoal. Não temos microfones no nosso corpo, podemos dizer o que bem nos apetecer desde que aceite pelo grupo com quem nos encontramos. É esta a liberdade de que cada um de nós usufrui, acrescentando a nova internet. Mas agora, o governo quer proteger o indivíduo, quer que abdiquemos da nossa liberdade de pensar, mesmo que erroneamente, da nossa privacidade, em troca de um pouco mais de segurança. Benjamin Franklin diria “Those who would give up essential Liberty, to purchase a little temporary safety, deserve neither Liberty nor Safety”.

Aqueles que agora lêem e pensam “mas não é absolutamente errado o racismo?” sim, é, mas abdicamos aqui dos mais fundamentais direitos, privacidade e liberdade de expressão. Não se esqueçam que hoje a censura se aplica a deploráveis, chegará o dia que, por distorções e deturpações, se apresentará à porta dos justos. Chegará a KGB à tua porta com acusações de discurso de ódio, a Gestapo pronta para te prender por racismo e a PIDE por incitação ao ódio

Como nos sentiríamos se hoje o governo instalasse microfones nas ruas para controlar discurso de ódio? Se existissem indivíduos especificamente contratados para espiar os seus vizinhos, de forma a controlar a homofobia e o racismo? Diriam vários que se trata da volta da PIDE, os mais novos esqueceram-se, mas isto, é a censura, é a ditadura…