PSD: quem te viu e quem te vê

Após a saída de Passos Coelho do PSD, a fasquia não era baixa para liderar o maior partido de direita, e neste caso também da oposição, em Portugal. Rui Rio assumiu a liderança do partido com um objetivo (ou achávamos nós): recuperar a posição do PSD como governo em Portugal. 

A caminhada de Rio começa mal. Entre fevereiro de 2018, quando é eleito, e janeiro de 2019, o PSD vê as sondagens caírem ainda mais, e o partido a descer dos 27% para os 24,8% – resultado que deixaria o principal opositor do governo com o pior resultado de sempre numas eleições legislativas desde 1976 com Francisco Sá Carneiro (24,3%).

Nas eleições, o resultado acaba por não ser tão mau quanto esperado, situando-se nos 27,9%. É preciso recuar até 1983 para encontrar um resultado tão negativo para o partido, ainda assim.

No entanto, para Rui Rio, não se tratou de uma “grande derrota”. Nada disso! Defende até que o PSD “deu um passo em frente para recuperar a confiança dos portugueses”, uma vez que estes (péssimos) resultados se devem à conjuntura externa que favoreceu o PS. Pessoalmente, concordo até certo ponto. O PS gozou, de facto, de uma conjuntura externa sem precedentes e acabou por ser beneficiado por isso. No entanto, os serviços públicos portugueses encontram-se nas ruas da amargura, e o PSD de Rui Rio foi MUITO incompetente na oposição ao governo de António Costa (os resultados ficaram à vista, não é verdade?).

Após as eleições, e após Rio defender que o PSD tinha de liderar a oposição a António Costa, o partido começa por vacilar nessa tal oposição. Rui Rio demora bastante até oficializar a posição contra o OE de 2020, e fá-lo (coincidentemente, tenho a certeza) apenas uns dias antes das eleições internas no partido – 11 dias antes para ser concreto. Vá lá, ao menos votou contra! 

É a 15 de Abril que se dá, para mim, o fim do mito “PSD oposição”. Se até à data o partido pouco ou nada incomodou o governo socialista, nesse dia Rui Rio dirige-se diretamente aos militantes dizendo que “não era patriótico incomodar o PS durante o estado de emergência”. Longe de mim querer negar as dificuldades por que António Costa e companhia passaram ao enfrentar uma pandemia global. No entanto, ou muito me engano, ou o que não é patriótico é não defender o que se acha melhor para o país, especialmente este passando por um período de dificuldade tremenda!

Desde aí que não pararam os facilitismos ao Partido Socialista, e aquele que era o principal partido da oposição passou então a ser o principal aliado do Governo – para não complicar a vida a António Costa, e mostrar esse seu patriotismo, o PSD até se absteve na votação do Orçamento de Estado Suplementar.

Ora, mas com o desaparecimento do PSD, partido de direita opositor do PS, estou eu bem. Entre a Iniciativa Liberal, o Chega e o CDS-PP, o eleitorado de direita tem muito por onde escolher. Mas para Rui Rio isso não chegava. Sendo que a única coisa que separava o PSD do PS era o D, Rui Rio decidiu dar também um murro no estômago do Democrata em Partido Social Democrata.

Vamos perceber uma coisa. Não há melhor forma de fazer oposição do que enfrentar o Primeiro-ministro em plena AR. Fazer as perguntas difíceis, apontar os erros e as incoerências, pedir explicações, etc. Assim sendo, por que raio haveria um partido “da oposição” de querer acabar com os debates quinzenais, uma oportunidade de fazer isso mesmo? Por que razão quereria um partido da oposição que houvesse MENOS escrutínio ao governo em funções?

Em 2007, Paulo Portas, então líder do CDS, propôs que os debates mensais passassem a ser quinzenais, de forma a que os deputados tivessem mais oportunidades de interpelar o Governo. Na altura o primeiro-ministro josé socrates aprovou e assim foi nos últimos 13 anos. Até que Rui Rio decidiu que incomodar o primeiro-ministro uma vez a cada 2 semanas era demais, e que se tinha de aliviar a sua carga de trabalhos (esta proposta faz com que o PM apenas tenha de se deslocar a São Bento 8 vezes por ano!).

Isto pode até parecer uma parvoíce baseada num homem demasiado incompetente para fazer o seu trabalho (o que também é, para sermos honestos), mas é muito mais do que isso. 

Para um partido grande, e com grande cobertura mediática, esta medida afeta pouco. Rui Rio sabe que continuará a aparecer nas notícias todos os dias. No entanto, quem sai mesmo prejudicado desta situação são os partidos pequenos. Partidos como a IL ou o Chega que precisam destes debates para se expressarem publicamente, para que o povo possa ouvir as suas ideias e, sendo estes dois os novos líderes da oposição em Portugal, apontarem ao Governo as suas falhas, incompetências e incoerências. 

Esta medida acaba por ser um tiro a queima-roupa na democracia, e a sua aprovação diz muito do estado dessa mesma democracia em Portugal. Menos escrutínio, menos parlamentarismo, mais margem de manobra para quem manda e maior centralização do foco mediático – é esta a bandeira do PS(D) de Rui Rio.

De realçar que esta votação criou bastante polémica. Vários membros do PS e PSD votaram contra a proposta. Bom saber que ainda há verdadeiros defensores da democracia em ambos os partidos. Chamo à atenção o voto contra de Alexandre Poço e o voto a favor de Sofia Matos – estes dois deputados vão a eleições neste domingo para disputar o cargo de líder da JSD. Para bem do país e do futuro do mesmo, espero que vença o candidato democrata. 

É triste ver um partido da dimensão do PSD reduzido a isto. Já não é de direita, já não é oposição, e parece ser pouco mais que uma muleta do PS. Pena o Miguel Morgado não ter reunido as assinaturas a tempo…