O Verdadeiro Paradoxo da Tolerancia

Passo a explicar: Há cerca de dois anos que ando a ler uma banda desenhada que, supostamente, representa algo chamado de “Paradoxo da Tolerância”, o qual foi escrito por Karl Popper.

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Ao início não sabia como explicar o porquê da banda desenhada estar errada perante um contexto histórico, mas sabia que algo não estava correto. Para vos desvendar o erro, preciso explicar o que é que a banda desenhada insinua. Ela sugere que, se a sociedade aceiar um discurso “intolerante”, o fascismo aumentará, devendo esta sociedade então silenciar qualquer discurso intolerante. Isto está errado por duas grandes razões:

1. É assumir que as pessoas vão eventualmente aceitar o fascismo se o debate político que ouvirem for analisada pelo Estado (um pouco irónico). Isto é errado porque não se derrotam maus movimentos políticos silenciando-os, mas sim provando o quão maus eles são.

2. Historicamente falando, isto nunca aconteceu. O fascismo cresce no meio do desespero, e a Alemanha Nazi é um bom exemplo. Depois da Primeira Guerra Mundial 1, os Alemães estavam desesperados e humilhados, por terem sido castigados aquando da asinatura do tratado de versalhes. Este dizia que teria sido a Alemanha a culpada de guerra (Artigo 231º do Tratado de Paz de Versalhes), o que obviamente não caiu bem ao povo alemão, pois muitos deles não eram a favor da guerra, e outros nem tinham conhecimento das motivações da mesma.

Para demonstra o quanto Alemães e Europeus, por extensão, acreditavam na Guerra, a frente ocidental declarou tréguas não oficiais durante o natal de 1914. Durante este cessar fogo soldados de ambos os lados celebraram o natal juntos, mas isto já é fugir ao ponto… O ponto é que o povo alemão se sentiu humilhado depois da primeira guerra mundial e, para agravar, a sua economia já estava destruída. Por exemplo, em 1923, 43 bilhões de marcos valiam 1 cêntimo. Quando existem pessoas desesperadas e humilhadas, o partido que oferece mudança é o vencedor. É aqui que o partido nazi entra em cena, prometendo mudança, que levou á sua vitória.

O resto já se sabe. Isto não é novo para a maior parte das pessoas. A novidade (que até para mim foi), é que a banda desenhada também está errada em relação ao que Karl Popper na realidade disse, que passo a citar:

“Tolerância ilimitada deve levar ao desaparecimento da tolerância. Se extendermos tolerância ilimitada até aos intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, os tolerantes vão ser destruídos juntamente com a sua tolerância. Nesta formulação não estou a insinuar, por exemplo, que devemos sempre suprimir a expressão das filosofias intolerantes. Desde que consigamos combatê-los usando argumentos racionais e controlá-los a partir da opinião pública. Supressão seria certamente imprudente. Mas devemos ter o direito de os suprimir pela força se necessário; pois pode acontecer que não estejam prontos para acompanhar o nosso nível numa discussão racional, mas comecem por denunciar qualquer argumento; Podem proibir os seus seguidores de ouvir argumentos racionais, por serem enganadores, e ensina-los a responder a discussões usando os punhos ou armas.

Devemos, portanto reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Devemos afirmar que qualquer movimento que prega intolerância se situa fora da lei, e devemos considerar incitação à intolerância e perseguição como criminoso, da mesma forma que devemos considerar como criminamento a incitação ao homicídio, rapto ou até reviver o tráfico de escravos.”

Como se pode ver na área sublinhada da citação, esta é um pouco diferente do que a banda desenhada insinua, que é normalmente usado para justificar leis e ações para silenciar supostos “intolerantes”.

No entanto, o que Karl Popper afirmava era que para derrubar a intolerância, devemos debater sobre os assuntos, não silenciá-los.

Nesta formulação não estou a insinuar, por exemplo, que devemos sempre suprimir a expressão das filosofias intolerantes. Desde que consigamos combatê-los usando argumentos racionais e controlá-los a partir da opinião pública. Supressão seria certamente imprudente.

Karl Popper acha que violência e/ou censura apenas é aceitável se os intolerantes se tornarem violentos, o que a esse ponto se torna auto defesa,

mas comecem por denunciar qualquer argumento; Podem proibir os seus seguidores de ouvir argumentos racionais, por serem enganadores, e ensina-los a responder a discussões usando os punhos ou armas.

O Paradoxo da Tolerância de Karl Popper alinha-se mais, na realidade, com pessoas que são contra leis que limitam o discurso e que são como movimentos como a “Antifa“, do que com aqueles que o usam para defender o porquê de deverem silenciar outros.

Outra coisa a falar sobre a sua citação é a primeira frase e a minha interpretação da mesma.

“Tolerância ilimitada deve levar ao desaparecimento da tolerância”

Isto, na minha interpretação, pode ser aplicado à civilização ocidental moderna, já que nela, hoje em dia, ser tolerante é uma das coisas mais importantes, se não a mais importante, mesmo que nos afete negativamente. Por exemplo, devemos ser tolerantes com a imigração em massa para a Europa, e de crenças islâmicas, ao mesmo tempo devemos ser tolerantes com a promiscuídade, etc. No entanto, se formos tolerantes com a imigração em massa e com o islamismo, esta tornar-se-à a religião dominante, o que levará ao fim da tolerência como um todo.

Para além disto, somos obrigados a tolerar tudo, mesmo que isso seja objetivamente errado, como o recente impulso de sexualização infantil. Isto tornará as pessoas intolerantes, conduzindo ao fim da tolerância.

Com isto, concluo que a civilização ocidental está destinada a ser intolerante, se tolerar aspetos que levarão à morte da tolerância.