A Gripe Espanhola e o Coronavírus: O Ontem, Hoje e Amanhã da Saúde Mundial

A Civilização Humana não é estranha a surtos, epidemias e até pandemias, tendo várias no decorrer da sua História, o que consequentemente fez aumentar a sua consciencialização e noções relativamente a saúde ao longo dos séculos, tanto a nível individual como colectivo.

Poderíamos talvez considerar friamente as mesmas como “provações” ou “dores de crescimento” assentes num processo de selecção natural onde milhões sofriam com a presença constante da morte e da ruptura económico-social, onde a Humanidade foi, de certa forma, forçada a ultrapassar de maneira a assegurar um futuro para si.

Portanto, nestes dias de incerteza em que vivemos devido à pandemia de Coronavírus, que se encontra de momento a afectar tudo e todos, julgo ser importante reflectirmos sobre a última grande pandemia existente na História, ou seja, a pandemia de Gripe Espanhola no início do século XX e o impacto da mesma, tendo também em conta as características da actual pandemia.

Assim, será possível para o leitor realizar diversos paralelismos com a actualidade, assim como assinalar as diferenças e semelhanças entre as duas grandes pandemias, através de uma perspectiva histórica.

A Gripe Espanhola

A Gripe Espanhola, ou “Pneumónica” em Portugal, não possui uma origem concisa, contudo credita-se que no fim de 1917, num acampamento hospitalar que acolhia tropas britânicas em França, onde alguns patologistas começaram a descrever o aparecimento de uma nova doença mortal.

Foi nos EUA, concretamente no Kansas, que a gripe teria supostamente começado no fim de 1917. No entanto, também se aponta para Nova Iorque a origem. Como podemos compreender, o vírus surgira muito possivelmente nos EUA, e tendo sido notado oficiosamente no acampamento hospitalar anteriormente mencionado, contudo a sua localidade original ainda é alvo de diversos debates, não se tendo ainda alcançado uma conclusão. Em 1993, declarou-se a hipótese que o vírus teria começado na China e mais tarde, sofrido uma mutação nos Estados Unidos e depois alastrara-se para Brest, em França, nos campos de batalha durante a I Guerra Mundial. 

Mas porquê a designação de “Gripe Espanhola”, se as localizações onde inicialmente se localizaram surtos da gripe mortal não foram em território espanhol? Esta pergunta pode ser respondida ao analisar as circunstâncias da época. Em 1917, ocorria a I Guerra Mundial, e Espanha, como não se encontrava envolvida no conflito, pôde noticiar melhor a doença que os países beligerantes, que anunciavam os sucessos nas frentes de combate ou possuíam censura estabelecida, ocultando de forma deliberada ou involuntária a gripe.

Falando de Espanha, esta chamava a doença de “Gripe Francesa”, possivelmente devido à notoriedade no acampamento hospitalar. Esta foi mais tarde gravemente afectada pela pandemia, pois as autoridades viam a doença apenas como gripe, de forma a não causar pânico em massa.

Um dos principais países afectados foi a China, em 1918. Com a falta de informação da altura, julga-se que houveram poucos óbitos. Além disso, o país estava a passar por guerras de sucessão, suspeitando-se assim que a pandemia tivesse origem lá, visto que o povo chinês já era imune ao vírus. Tal seria confirmado em 2006, com a conclusão que a medicina tradicional chinesa era fulcral para o tratamento e contenção do vírus.

Houveram três vagas: a primeira em Março de 1918, no Kansas; A segunda, em Agosto do mesmo ano, alastrando-se a todos os EUA, atingindo assim, o seu pico; A terceira, no início de Fevereiro a maio de 1919 a uma escala global.

O Coronavírus

A actual pandemia começou em Wuhan, na China, em Dezembro de 2019, com o primeiro caso assinalado no dia 31. Acredita-se que tenha começado no Mercado Grossista de Frutos do Mar de Wuhan, onde se vendiam animais vivos. Os especialistas julgam que haja origem “zoonótica”. Ou seja, a doença apenas apresenta uma via de contágio, sendo esta entre o animal infectado e o indivíduo, o mesmo continuará a cadeia de transmissão, infectando (com o actual conhecimento) apenas os da sua espécie.

Dado o pouco conhecimento sobre esta doença, a 9 de Janeiro de 2020, ocorreria a primeira vítima mortal do Covid-19, e no mês de Fevereiro o vírus já se encontrava em outros pontos do globo, quando foi confirmado a presença do mesmo numa cidadã norte-americana de 83 anos, no cruzeiro Westerdam. Assim sendo, os casos começaram a aumentar, propagando o vírus à escala mundial. Consequentemente, no dia 11 de Março a OMS declara uma pandemia mundial.

No nosso país, o primeiro caso foi confirmado no dia 2 de Março, começando assim a propagar-se, levando ao isolamento 10 dias após do primeiro caso, com os portugueses a ficar em quarentena durante dois meses.

Semelhanças e Diferenças

Relativamente a semelhanças entre as duas pandemias, podemos considerar as seguintes: A crise global que empreenderam, em diversos sectores (comerciais, financeiros, sociais…), com destaque para o flagelo norte-americano e chinês; A quarentena que teve de ser cumprida, de forma a mitigar na medida do possível os impactos provocados; O seu “carácter pneumónico” e por último a desinformação e propagação das actuais fake news que constantemente temos conhecimento, que contribui para um clima de dúvidas e confusão em massa. Quanto a diferenças, é possível observar que os agentes virais são diferentes, sendo que o Coronavírus foi obtendo mutações que atrasam a realização de uma vacina; A sociedade, que num espaço de aproximadamente um século mudou bastante, no que diz respeito a progresso tecnológico, cultural e mudança de mentalidades e o maior número de tratamentos e antibióticos disponíveis, fruto do progresso tecnológico mencionado.

Conclusão

Com isto, podemos efectuar uma comparação literal? Na realidade, nem por isso, por diversos motivos: A pandemia de Gripe Espanhola não possui números exactos e ainda hoje estes são alvo de discussão, assim como a sua origem. Para além disso, a actual pandemia infelizmente ainda se encontra presente nas nossas vidas, sendo que os seus números e impactos ainda podem ser agravados, tudo dependerá da quase “messiânica” vacina, que trará um fim a este momento conturbado que presenciamos, e à nossa responsabilidade, enquanto agentes de saúde pública. Com este último assunto, relativo à eventual chegada da vacina, coloco ao leitor uma questão: Que países deverão ser vacinados prioritariamente? Os países mais ricos e influentes, que detêm controlo de grande parte da economia global, ou os países mais carenciados e destruturados, onde milhares se encontram infectados e outros milhares falecem diariamente?

Gostaria de agradecer ao pessoal do blogue a oportunidade de me “estrear” nestes meios, assim como às incríveis estudantes universitárias do ISCTE e ao seu trabalho de pesquisa, o qual me baseei para a redacção deste artigo.