Individualismo, o caminho para a criação de uma verdadeira comunidade

Quando era jovem, queria mudar o mundo.
Percebi a dificuldade de mudar o mundo, então tentei mudar a minha nação.
Assim que percebi que era complicado mudar a nação, foquei-me em melhorar a minha cidade.
Sem sucesso, já mais velho, optei por mudar a minha família.
Agora, na velhice, refletindo devidamente, a única coisa que poderia ter mudado era a minha pessoa. Se me tivesse renovado há muito, teria sido melhor para a minha família, teria tido um impacto na minha cidade, tornando o meu país cada vez melhor e consequentemente, também o mundo ficaria mais límpido.

um monge desconhecido. 1100 d.C.

O ser humano foi galardoado com uma imensa diversidade.
O temperamento, os tiques, as manias, as manifestações de prazer ou descontentamento, a fisionomia, a forma de agir, os valores, a língua… Poderia começar esta enumeração com características ainda mais pormenorizadas e prolongar os exemplos com traços mais amplos que exemplificariam como a beleza de cada um, contribui para um mundo mais rico, seja socialmente, ou até mesmo economicamente.

Somos um centro de “emoções à flôr-da-pele”, fator que permite testemunhar o mundo a cores, com um olhar crítico, permitindo assim a formulação de juízos de valor capazes e justificados.

Assim como as emoções permitem interiorizar o que os sentidos captam a partir do exterior, também conseguem escutar as inquietações, exteriorizando as necessidades de cada ser. Queremos ser ouvidos, compreendidos, refletidos e por fim correspondidos e este processo perpetua-se noutros indivíduos. Caso assim não fosse, não se insistiria na coação de terceiros, não haveriam discussões, nem haveriam tantas perspetivas de resposta a tantas questões do nosso mundo.

A autonomia permite uma alargada liberdade de escolha, necessária para suprimir as emoções e as necessidades de cada indivíduo. A criação de serviços e consequentemente mercados, deriva do efeito da causa da liberdade, espontaneidade e criatividade de um ser reverente. Isto explica a necessidade da concorrência, não só para reduzir os preços dos produtos (uma vez que a oferta é maior) (Lei da oferta e procura), como também para que o indivíduo seja servido pelo seu gosto, comandado totalmente pela sua preferência, em vez de se contentar com o que há disponível.

Uma outra liberdade que provém da autonomia é a de expressão. Esta permite que haja acumulação de conhecimento perante a reflexão do mundo, devido à variedade de proposições, argumentos e teses disponíveis para responder aos problemas mais inquietantes que a nossa realidade apresenta e acima de tudo, permite esta variedade de propostas. Caso tal direito fosse suprimido, muitos ideais, obras e contributos seriam encobertos pelo manto do esquecimento, ou ficariam aprisionados na mente de vários pensadores, como infelizmente, ainda nos dias de hoje ocorre.

Todas estas capacidades humanas permitem sustentar e tornar cada vez mais robusto um valor que jamais pode ser abalado, muito menos derrubado: a responsabilidade. A responsabilidade de responder pelos atos cometidos ou pelas palavras proferidas é um ponto vital para a integridade do indivíduo e para que seja mantida uma relação benéfica para com os restantes cidadãos, formando assim uma comunidade unida e pronta para adversidades.

É difícil imaginar uma maneira mais estúpida de tomar decisões do que deixá-las nas mãos de pessoas que não pagam por estarem erradas.

Thomas Sowell

O individualismo tem sido distorcido pelos adeptos do coletivismo. Estes afirmam que não passa da ganância, da falsidade e da exploração de um indivíduo mais capaz sob outro. É algo um tanto desconcertante receber um contra-argumento tão desinformado, ainda mais provindo de quem simpatiza com a ideia de rebanhos organizados, subjugados a um capataz todo-poderoso.

A verdade é que o individualismo, insultado e distorcido, tem mesmo vindo a perder adeptos e cada vez se pensa mais no coletivismo como resposta à desigualdade económico-social, como uma força que construirá novos pilares que sustentarão novos valores necessários para uma sociedade homogénea.

No movimento individualista, é justificado que por vezes, um indivíduo, uma causa, ou uma instituição sejam usados como meios, de forma a que assim se consiga garantir uma maior felicidade e liberdade para um maior número de pessoas.

Mesmo aqueles que veem no Estado um peso incompreensível em todos os serviços facultados, toleram a sua existência, obviamente muito menos presente. A função do Estado não é planificar, nem decidir o percurso de cada um, mas sim satisfazer as necessidades quando elas são esquecidas.

Para isso, o indivíduo dirige-se às urnas e escolhe os representantes que julga melhor satisfazerem as suas necessidades. Estes serão usados como meios para que se estabeleça uma relação estreita entre indivíduo e a instituição do Estado.

Após satisfeito, o indivíduo retorna plenamente à autonomia, sendo capaz de agir para o bem-comum, voluntariamente, sem nunca ser coagido ou obrigado a tal.

No movimento coletivista, o indivíduo na sua base deixa de existir, aliás deixa de ser tratado como tal, passando a ser encaixotado como membro de um determinado grupo, com determinadas funções, para determinados objetivos. Este grupo vasto é usado como meio para satisfazer um único indivíduo todo-poderoso, uma causa, ou uma instituição, características de um regime ditatorial.

O coletivismo não tolera as liberdades acima apresentadas. No caso da liberdade de discurso, o indivíduo tem que ser capaz de gerar pensamentos independentes, assim como proferir discursos independentes, deste modo, apresenta-se como uma entidade independente, relativamente ao grupo em se encontra inserido. Ora, isto é uma completa afronta à agenda coletivista e à forma como este movimento pretende alcançar os seus objetivos.

A negação do indivíduo faz com que as emoções, ou as necessidades não sejam ouvidas, compreendidas, refletidas e por fim correspondidas e uma vez que não são resolvidas, as ações de apoiantes do movimento coletivista são perigosas, pouco refletidas e desequilibradas, juntando a isto as suas ideias vazias de conteúdo e de forma, colocam em causa o bom nome da iniciativa por que lutam, assim como a vida de quem os rodeia. Agem como uma marioneta, comandada por poderosos influenciadores sem escrúpulos. Uma pessoa sem conhecimento pleno das suas faculdades, direitos e deveres, incapaz de deliberar racionalmente, jamais terá um confronto calmo com os demais.

Aquele que despreza o indivíduo na sua base, a sua diferença e os seus contributos específicos, tende a ser extremista, sem carácter, sem um olhar crítico, seguindo cegamente quem o/a comanda, independentemente se concorda ou não com os efeitos que a execução da ordem poderá vir a ter. Como tal, pertence a comunidades restritas, negando a entrada a pessoas, que apesar de verem naquela causa uma necessidade, continuam a ser independentes e críticas quando observam algo que julgam estar mal.
Como afirmei anteriormente, quem sai constantemente do percurso do rebanho tende a ser eliminado rapidamente, de forma a não corromper a normal rotina do mesmo.

O coletivismo parte da ideia que para que uma sociedade continue estável, o indivíduo seja etiquetado com uma certa classe ou característica. Para que todos sejam satisfeitos, a entidade planejadora promulga medidas que satisfaçam os grupos na generalidade, esquecendo-se das especificidades. A insatisfação cresce, a agressividade aumenta e verificam-se manifestações violentas, cujo o único resultado é a destruição do que já foi construído por uma comunidade outrora unida e conhecedora dos pontos fortes de cada indivíduo.

O individualismo, centralizado no indivíduo, pretende que este seja crítico em relação a si, que reconheça os seus problemas e os melhore, os seus direitos, deveres e capacidades, para desta forma, quando sentir a necessidade de contactar com outros seres, consiga evoluir tanto materialmente, como imaterialmente, construindo uma comunidade erguida nos pilares da igualdade, solidariedade e da fraternidade.