Já não faz sentido ser contra a festa do Avante!

Mais do que uma simples festa, a Festa do Avante! possui um enorme significado simbólico para os militantes do Partido Comunista (e não só) assim como se afirma uma grande fonte de receitas interna que se compreende. O que já não se compreende são os ataques e “ziguezagues” constantes cometidos pela opinião pública a que se acrescenta uma boa dose de hipocrisia com uma pitada de falta de coerência.

Sim, diga-se falta de coerência porque tudo o que este “mega-debate nacional” tem em torno de um evento político fez com que entendidos e não entendidos viessem para a praça pública passar figuras e fazer comparações estapafúrdias quando muitas vezes eles próprios nem sabiam, não sabem e nem nunca tinham ouvido falar de tal festa.

Mas vamos começar pelo início, assumindo desde já que o PCP também tem aqui alguma dose de culpa. Estávamos em finais de março, em pleno pico da pandemia e a acabar de completar a primeira quinzena que nunca mais parecia ter fim de confinamento e estado de emergência. Neste cenário, vários organizadores de eventos de massas como os próprios partidos políticos começam a suspender ou até mesmo a adiar muitos eventos já programados por simplesmente não saberem se dali a um, dois, três meses a situação já teria melhores dias. No caso do PCP e da Festa do Avante até ser mais tardia (por se realizar já em setembro em comparação com outros eventos partidários), em vez de se ter optado por uma opção ponderada de “vamos aguardar o melhorar da situação e depois logo se vê”, optou-se logo por de uma maneira ou doutra, dizer que iria haver Avante!.

Foi aqui que o PCP falhou – e muito. Numa altura daquelas em que as pessoas já começavam a desesperar por estar fechadas em casa, vir um partido político anunciar tal coisa foi a “acendalha” que faltava para que um autêntico incêndio começasse. As críticas começaram a vir de tudo o que era lugar, incluindo de setores como o da cultura, que ansiava por soluções e um futuro mais risonho pós-confinamento. Se por um lado até se podia dizer que haviam críticas devidamente elaboradas e compreensíveis vindos de alguns, por outro assistiu-se a um fenómeno de “tiro ao alvo” protagonizado por uma parte da sociedade e com o apoio, diga-se também, de alguma comunicação social.

Era mais do que evidente: havia ali já uma espécie de “alvo a abater” por parte dessas pessoas que depois por consequência agregaram à barafunda outras tantas que nem nunca sequer tinham ouvido falar de tal evento. Recordo que nesses dias, Avante ou Festa do Avante! eram dos assuntos mais comentados em todo o país, chegando inclusive ao topo das tendências do Twitter. Algumas das situações que evidenciam bem isto de que falo foi mesmo ver bastantes jovens tweetando a perguntar o que era a Festa do Avante! ou a torcer críticas “de arrasto” sobre algo que lhes era desconhecido.

Já o incêndio ganhava maiores proporções quando a DGS emitiu um parecer ao governo em que aconselhava a proibição de festas e festivais até ao final de setembro. Aí, aconteceu o que eu chamo de “derrame de combustível”. Lá voltou o Avante! a ser dos assuntos mais falados do país, lá voltaram os jovens frustrados por não poderem ir aos seus festivais de verão, lá voltaram as pessoas do costume a acusar o PCP de irresponsabilidade ou ainda aqueles que perderam infelizmente os seus entes queridos durante o confinamento e nem prestar uma última homenagem lhes foi permitido.

Eu falo por mim, durante o confinamento também eu era contra a realização do Avante!. À minha volta um mundo todo em colapso, os boletins da DGS com cada vez mais mortes e infectados ou ainda o simples facto de termos de ficar em casa, naturalmente faziam-me sentir também um pouco indignado por em todo este caos haver só quem já pensasse na festa. Era compreensível, afinal nenhum de nós sabia como isto iria acabar. Sabíamos que um dia tudo iria ficar bem mas até quando é que teríamos de esperar? Que dia iria ser esse?

Termina o confinamento e começa-se a tentar o regresso a um novo normal. Nestas primeiras semanas de desconfinamento, o tema Avante! esmorece um pouco e a maior parte das pessoas sente-se finalmente aliviada por poder aos poucos sair de casa e regressar “à rotina” dentro do possível. Mas se até aqui ainda poderíamos ter algum cepticismo em relação ao futuro e até ser compreensível a indignação de muitos que estavam em casa, daqui para a frente e com a diminuição tanto do número de novos casos como de mortes diárias, tal deixa de ser inconcebível

Não se teve de esperar muito para que logo nos primeiros dias de desconfinamento se observasse algumas situações de risco. Desde festas ilegais, ajuntamentos nas praias ou até jantares-comícios, começou-se a ver que muitos dos que antes criticavam ferozmente a realização da Festa do Avante! eram os protagonistas de tais actos incoerentes. Falemos de talvez o maior exemplo de podridão e hipocrisia que tivemos de presenciar nos últimos tempos em âmbito disto: o jantar-comício do partido CHEGA na Quinta do Paúl, em Leiria. Para quem antes lançava tantas críticas ao PCP e até ter acusado o governo de estar a ser cúmplice ao permitir “excepções à esquerda”, vir agora protagonizar e organizar este evento onde várias pessoas se encontravam sentadas a menos de cinquenta centímetros umas das outras e em ajuntamento é, no mínimo, contraditório. Parece mentira mas é verdade: os mesmos que antes eram os mais duros e ferozes a atiçar o lume vinham agora fazer uma destas, é obra!

No entanto, não foram os únicos. Todos vimos e todos sabemos: a praia de Carcavelos encheu até mal se ver a areia, o santuário de Fátima ficou repleto de fiéis, várias festas ilegais chegaram a acontecer até ao aparecimento das autoridades ou ainda as noites de Albufeira onde holandeses e portugueses permaneciam em plena via pública em ajuntamentos a beber, por exemplo.

É errado? Se tivesse que dar a minha opinião não diria “errado”, diria antes inconsciente. Não posso ter nem tenho a autoridade moral para dizer se isso está certo ou se está errado. Cada um tem de ter a consciência moral daquilo que faz e daquilo que disse no passado antes das acções que toma e com isto quero regressar de novo ao tema central deste texto.

Com o levantar de tantas medidas restritivas, com as várias diretrizes elaboradas pela DGS para os diferentes espaços ou ainda com a realização de outros eventos como as Noites F, em Faro, devidamente autorizados também pela DGS faz sentido continuar a ser contra a Festa do Avante? A meu ver, não. E foi por isso que mudei a minha opinião sobre a questão, sobretudo depois das medidas sanitárias e da lotação máxima do espaço entretanto já terem sido anunciados.Segundo o próprio PCP, com uma lotação máxima de trinta e três mil pessoas no recinto de 30 hectares, estima-se que cada indivíduo possa usufruir de nove m2.

Se se parte de um princípio em que várias atividades e eventos sobre determinadas normas podem acontecer, porquê que se há de continuar a bater no ceguinho em relação ao Avante? Deixemo-nos de ser hipócritas ou então, no caso de alguns, deixem de ser cretinos e de querer com isto travar batalhas ideológicas. Todos sabemos que se forem cumpridas as medidas sanitárias a festa irá correr bem para todos assim como tantos outros eventos que têm acontecido por esse país fora em menor escala. É mais do que evidente: quem é contra a realização da Festa do Avante! já não o faz por receio da pandemia mas sim por puro ataque ideológico.