A japanização da economia

Japanização da economia, em tempos sinónimo de recuperação económica, explosão tecnológica e motor de inovação. Hoje, o Japão rivaliza com os estados unidos em matéria de influência cultural (rivaliza talvez seja um grande exagero, mas o segundo lugar é japonês). Todos vimos ou vemos animes, conhecemos a sua cultura e não é difícil conhecer pelo menos 10 daquelas pessoas que idolatram a aura japonesa. Economicamente o Japão continua a ocupar o 3º lugar a nível mundial e foi em tempos a Alemanha da Ásia devido ao seu fantástico crescimento no pós guerra (com as devidas proporções, claro, o Japão não precisou passar por 20% das mortes e destruição alemã. As bombas atômicas, apesar do que a propaganda possa fazer parecer, salvaram o Japão). No entanto, hoje, Japanização tem um significado oposto ao inicial. Faz referência ao estado da economia e finanças públicas japonesas, que é, em larga medida, um desastre.

Não se sabe bem quem primeiro usou “japanização” neste sentido, mas veio para ficar. A primeira vez que o li foi num artigo da Forbes, que define japanização da economia como “Estagnação económica de nações altamente endividadas cuja a economia sobrevive de juros baixos via expansão monetária do banco central” uffa, que trava línguas.

Isto parece mais complicado do que realmente é- na prática isto significa que em números reais, ajustados à inflação, o PIB japonês pouco cresce. Que o estímulo fiscal é complicado, uma vez que o japão é a nação mais endividada do mundo. E que toda a economia está assente em empresas zumbis. Zumbis? Sim, é um termo económico real, são empresas que têm prejuízos, pouco competitivas, sobrevivem de apoios estatais e, principalmente, de juros baixos. Juros baixos que são possíveis pela expansão monetária, ou seja, imprimir mais dinheiro. Fora isso ainda têm que lidar com a população mais envelhecida do mundo. (O japão faz lembrar algum continente?). Para algum contexto, o salário médio japonês não cresce desde os anos 90. Na verdade, em números reais, caiu 10% desde 1997. Hoje, o Japão está em 19º lugar na lista de países da OCDE por salário médio. Em 1990, logo depois da crise, estava em 9º.

O japão foi em tempos o motor de várias inovações empresariais. O mestre Maasaki Imai, por exemplo, criatdor do Kaizen, revolucionou a forma de pensar os negócios. Não se tratou de uma evolução tecnológica, algo mais profundo, uma filosofia empresarial que tomou o mundo todo!

Isto era o Japão, inovação e prosperidade. Hoje, o japão está tão atrasado que enquanto mais de metade das empresas multinacionais já têm medidores de produtividade para equacionar aumentos, o japão continua numa base de “anos de casa”.

O início

Como eu disse, o Japão foi em tempos um país com em crescimento brutal no pós guerra. Até 1973 o japão cresceu em média uns incríveis 9% ao ano. De 73  a 92 cresceu 4,4% ao ano, apesar de mais modesto, é impressionante. Já de 92 até hoje cresceu apenas 1% ao ano. Com a crise de 2008 a economia chegou a cair 6% num ano e teve problemas para recuperar, conseguindo atingir o mesmo nível apenas em 2013.

Foi nos anos 90 que começou o experimento economico-monetário. Segundo algumas teorias económicas, normalmente preferidas pela esquerda, se aumentarmos a oferta de moeda e o gastos governamentais, isso vai gerar mais crescimento económico. Como vimos isso não é bem assim, criando na verdade uma economia estagnada no longo prazo.

É aqui que entra Shinzō Abe, um conservador centrista (de ressaltar que a nossa cultura ocidental de esquerda-direita é bem diferente da japonesa), que foi eleito pela primeira vez em 2006, mas devido a vários escândalos na sua administração foi obrigado a renunciar pouco depois.

Em 2012 foi reconduzido ao cargo com uma campanha assente numa expansão monetária mais reforçada com vista a combater a deflação e aumento de gastos governamentais com um aumento do estado social. Chamada de Abenomics. (Também um aumento de gastos com o exército, mas isso seria assunto para outro artigo)

No seu discurso de vitória afirmou-

“Com a força de todo o meu gabinete, implementarei uma política monetária ousada, uma política fiscal flexível e uma estratégia de crescimento que incentive o investimento privado e, com esses três pilares da política, alcançarei resultados”

Plot twist, não alcançou!

 O Japão já se encontrava numa recessão antes da pandemia (como se pode ver no 3° gráfico), apesar de vários acordos de comércio, incluindo com a União europeia, e uma tentativa de reestruturação da capacidade produtiva.

Nem tudo foi mau. O desemprego diminuiu, mesmo com a entrada de vários imigrantes (um passo bastante importante uma vez que o japão era um dos países mais hostis a imigrantes) e uma maior integração das mulheres no trabalho.

Vamos ver com olhos claros. Até há pouco tempo a Abenomics era considerado um projeto mediano. O PIB per capita cresceu apenas um pouco abaixo dos EUA nesse tempo e acima de países como a França e Portugal. No entanto, a crise do Covid19 afectou o Japão como a nenhum outro país, mostrando as fragilidades deste sistema. A economia japonesa contraiu uns chocantes 27,2%.

A Fitch Revises afirma que o Japão apenas terá o mesmo PIB da pré pandemia no final de 2021

https://www.fitchratings.com/research/sovereigns/fitch-revises-outlook-on-japan-to-negative-affirms-at-a-28-07-2020

O que mais exemplifica isto é que apesar de tudo o Japão não reagiu mal ao covid19. Na verdade, foi considerado durante muito tempo um caso de sucesso que conseguiu não aplicar medidas muito restritivas, mas manter o vírus controlado. Todavia, o seu sistema financeiro e o seu tecido industrial não foram capazes de resistir, mostrando exactamente o ponto inicial- a japanização da economia e os seus mecanismos são destrutivos para uma nação, transformando até os países mais prósperos em campos abertos de suicidio. E isto não é exagero, o Japão apresenta a maior taxa de suicídio do mundo. As razões para isto são debatidas, mas o isolamento social e a cultura complacente são apontadas como os responsáveis. Mas qual o factor subjacente? O Japão tem uma estrutura hierárquica bastante rígida, o que não é necessariamente mau. Subir na cadeia alimentar é o motor da humanidade, e uma hierarquia é importante, o problema é a falta de mobilidade social. Quando não existe incentivo a perseguir um futuro melhor porque aquilo que almejamos está condicionado, não pode exisitir mobilidade social. A possibilidade à inovação é o grande motor para a mobilidade social. A capacidade de uma empresa grande falir e ser substituída por uma melhor e mais bem organizada. Com a economia zumbi do Japão fica praticamente impossível empreender porque as empresas grandes são sustentadas. Subir na vida, então, fica dependente de cunhas e não da criatividade, gerando uma sociedade estagnada.