Saúde Mental em Tempos de Covid-19

Numa altura em que já abandonamos o estado de emergência, mas se fala numa segunda vaga de covid 19 espero que não se cometam os mesmos erros que se cometeu na primeira vaga.

Tanto a saúde mental, como outras doenças físicas deixaram de ter importância. Durante mais de 3 meses a única doença que o ser humano podia ter era covid. Já não havia cancro, AVC, ataques cardíacos, etc. Ou melhor, as pessoas que as tinham sabiam que estas continuavam a existir. Mas parece que a DGS se esqueceu das mesmas. Milhões de consultas, cirurgias e tratamentos cancelados. Segundo dados do jornal publico, em abril a covid só explica 8% das mortes. Já em julho, mês onde morreram 10390 pessoas, valor mais alto desde há 12 anos, apenas 1,5% foram por covid. As pessoas começaram a ter medo de ir aos hospitais por medo do covid. Quando iam não recebiam, muitas das vezes, a atenção necessária afinal, se quase todos os médicos apenas estavam ocupados a tratar o covid, era difícil darem atenção ao resto.

Já antes do covid a DGS falhava a nível de doenças mentais:

  • Na maioria dos centros de saúde não há psicólogos.
  • Nos hospitais as vagas estão cheias.
  • A DGS não vê na saúde mental uma questão prioritária, o programa para a saúde mental está quase parado desde 2018.
  • As doenças mentais são a segunda principal causa de morbilidade em Portugal.

Durante a pandemia tudo isto piorou. Para alem de todas estas fragilidades, as consultas passaram a ser via telefónica. 20min de uma chamada telefónica com um psicólogo ou psiquiatra dá para quê? Está na hora de refletirmos.

Numa altura em que as pessoas perdem empregos, sentem-se sem saída, com contas para pagar. Numa altura em que a comunicação social só fala de covid, fator que em nada contribui para a saúde mental, visto que, quando as pessoas precisam de se abstrair do tema covid são bombardeadas 24h por dias com o mesmo tema. Numa altura em que
pessoas veem familiares e amigos morrerem e não podem fazer o seu luto. Numa altura em que as pessoas não podem sair de casa, convivem constantemente com as mesmas pessoas ou até ficam sozinhas. Numa altura em que a saúde mental da maioria da população está em declínio, as pessoas não só continuam sem resposta, como quem tinha essa resposta se vê sem ela.

Estamos a começar uma nova normalidade. Começamos a aprender novos
comportamentos sociais que devemos ter. Está na altura de também ganharmos novos hábitos a nível mental. Esta na hora de também a DGS, o ministério da saúde agir segundo uma nova normalidade e aprender com os erros do passado. Melhorar a saúde mental e a prevenção de doenças mentais é fundamental. Mas como bons casmurros que são, continua tudo igual ou até pior.

Uma vinculação e socialização saudável é vital para um bom desenvolvimento do individuo (Harlow provou-o nos seus estudos). No entanto, sabe-se que a DGS quer que crianças que são retiradas de ambientes de risco, muitas delas com traumas, estejam em confinamento durante 15 dias isoladas. Onde está a vinculação, que já não é saudável à partida, mas que só piora quando lhes dizem que vão ser protegidas e depois as deixam isoladas durante 2 semanas?

Está na hora de refletirmos e de percebermos que todos nós somos agentes de saúde publica e todos devemos lutar por uma saúde melhor. Não só uma saúde física, mas também a saúde mental. Se os órgãos governamentais não o fazem, façamos todos nós. A melhor forma de lutarmos pela saúde mental é estarmos atentos aos sinais, informarmo-nos e falarmos sobre o tema. Não tenham medo nem vergonha de falar de doenças mentais, de depressão, de suicídio. Não se escondam por trás do estigma e da vergonha. As doenças que antes não “eram nada e ninguém tinha” continuam silenciosas, mas cada vez mais mortais.