America First ou Europe First?

Nos últimos 3 dias pudemos assistir ao desenrolar das eleições nos Estados Unidos da América, às quais muitos se referem como sendo as eleições da década. De facto, estas eleições têm uma acrescida importância. Por um lado, marca uma mudança de direção no movimento do nacional-populismo liderado por Trump, que consequentemente tornou mais fácil o surgimento e crescimento de uma direita bastante mais radical tanto nos Estados Unidos como na Europa e outros países, mudando para sempre a forma de fazer e falar sobre política, dando assim uma porta aberta à era da pós-verdade, da política reality show, da política do ódio e da bipolarização. Por outro, coloca em cima da mesa questões bastante importantes, como as alterações climáticas (que segundo o presidente Trump, não existem), que certamente não afetarão apenas os cidadãos americanos, mas os cidadãos de todo o mundo. Em suma, estas eleições não poderiam ter uma maior importância.

É bastante claro que a importância dada a estas eleições (e obviamente que o são) é completamente desproporcional e enorme face a outras eleições que nos influenciam diretamente, seja as eleições legislativas, as eleições presidenciais, e sobretudo as eleições europeias. Obviamente que estas nos influenciam muito mais que qualquer outra eleição que ocorra no outro lado do oceano. No entanto, ninguém diria isso pela quantidade de notícias, cobertura pela parte da comunicação social, ou até pelo aparente maior conhecimento dos portugueses das figuras da política americana, em contraste com as figuras europeias, e o funcionamento das instituições e processos eleitorais que acontecem nos Estados Unidos. Vejamos alguns dados: Nas eleições europeias do ano de 2019, foram 779 mil as pessoas, em média, que acompanharam a emissão da noite eleitoral na TVI. Neste mesmo canal, foram 1.262 milhões de espectadores (note que foram quase o dobro de espectadores) que assistiram a emissão da noite eleitoral das eleições Americanas em 2016, fora todas as pessoas que as acompanharam pelos canais internacionais como a CNN, BBC, por aí fora. Num inquérito de 2018, 47% dos entrevistados disse estar interessado nas eleições europeias, enquanto que 52% revelou não ter interesse nestas eleições. Quanto à probabilidade de irem às urnas em maio do próximo ano, 14% disse ser extremamente provável, 20% muito provável, 16% moderadamente provável e 49% pouco provável, sendo que em maio de 2019, apenas 40% dos portugueses foram às urnas para escolher os nossos representantes no parlamento europeu.

Torna-se assim aparente que existe um grande desconhecimento e desinteresse geral dos portugueses face às instituições europeias, em contraste com as americanas, sendo que as últimas, muito menos influência têm na vida nacional em relação às primeiras

Fazendo uma comparação com o sistema político americano, temos muito por onde escolher. Desde partidos mais conservadores que defendem uma maior iniciativa privada, partidos mais liberais nos vários eixos, partidos mais centristas e moderados, a partidos mais radicais tanto à esquerda como na direita, ou até partidos que não se definem como sendo de esquerda ou direita, e que defendem maioritariamente causas do que propriamente uma ideologia. Em suma, temos de tudo para todos os gostos e desgostos e, por isso, a facilidade de nos identificarmos com um partido é muito maior, contrariamente às eleições americanas que obrigam a escolher entre dois candidatos, com um projeto político que muitas vezes nada tem de antagónico, e faz com que seja mais difícil a identificação com um partido/candidato. Certamente requer mais tempo e reflexão para sabermos o que cada partido em Portugal defende, o que poderá tornar as eleições americanas mais apelativas e fáceis de compreender, tendo em conta que existe todo um espetáculo à sua volta como se fossem um reality show que nas nossas eleições não existe. Isto torna o ato eleitoral em Portugal mais sério e menos apelativo. A questão é que o facto de termos muita mais diversidade deveria ser um motivo de aproximação dos eleitores aos eleitos, o que infelizmente ainda não é verdade.

yellow red and blue lighted building
Foto por Tabrez Syed

Concluindo, as eleições a nível nacional são muito mais importantes e determinantes na nossa vida, e por isso, façamos com que seja Europe First, em vez da America First.

Revisão do texto feita por Ana Cardoso.