O apelo da tribo

Ao longo dos anos já escrevi em vários blogs e outro tipo de plataformas online. Não me recordo de todos, mas certamente mais de 10. Já escrevi com pessoas de vários tipos e ideologias. Já escrevi com uma pessoa que se veio a tornar dirigente do PCP, outra que hoje é dirigente do Chega, outra que me desejou a morte em consecutivos posts públicos, outra que usa todas as oportunidades que tem para me acusar de sexismo citando declarações descontextualizadas dos tempos em que me elogiava bastante, outro que se tornou próximo de movimentos de extrema direita aos quais recorreu para me ameaçar fisicamente depois de uma discussão mais violenta, vários secretários de estado, deputados e assessores do PSD, CDS e PS. Três já faleceram. Aprendi um pouco com todos e nutro simpatia por tudo aquilo que me ensinaram, mesmo aqueles cujas relações resvalaram para experiências negativas, com as quais também se aprende e se levam lições para a vida offline (sim, meus putos, aos 37 anos ainda se anda a aprender como esta coisa das relações pessoais funciona). Com um historial de muita coisa escrita, alguma mais acertada que outra, e de muitos companheiros de escrita cujas opiniões hoje me repugnam, não faltam oportunidades a quem quer atacar para usar declarações antigas fora de contexto ou, à falta delas, associações a pessoas que têm posições que não são as minhas. Ter exposição pública também é isto e é preciso saber viver com isso. Mesmo assim vou adicionar à minha lista mais um blog e mais um grupo de pessoas que terão o azar de serem associadas a mim para o resto das suas vidas. Com uns meses de atraso em relação à minha promessa, ficaz aqui o texto sobre as tribos.

As tribos online são apelativas. Ao contrário do que se pensa, hoje não é muito difícil ter uma posição fora do mainstream. Há 25 anos, alguém que tivesse uma posição desse tipo estaria sozinho, isolado, sujeito a pressão social para mudar de opinião. Havia menos diversidade de opiniões, algo que mudou com a internet e, ainda mais, com as redes sociais. Hoje, independentemente da opinião que se tenha, qualquer pessoa encontrará mais umas dezenas (centenas?) de pessoas com a mesma opinião. Podes viver em Ponte de Lima e acreditar que o comunismo funciona que não te sentirás sozinho. Podes ter uma licenciatura e acreditar que existe uma conspiração global para te obrigar a tomar uma vacina com um chip lá dentro que na internet encontrarás um número suficiente de pessoas a dizer-te que estás certo, a colocar like e partilhar as tuas publicações. Até podes, pelo teu ambiente social, acreditar que tens imensa razão em tudo o que dizes, mesmo que no Domingo à mesa de almoço com a família não te atrevas a repetir aquilo que colocas nas redes sociais.

Na era das redes sociais, as tribos alimentam-se de likes e partilhas. As tribos nem precisam de ser particularmente grandes para que os membros da tribo sintam que estão apoiados, basta que sejam suficientemente activas e ruidosas. Como as causas mais extremas tendem (geralmente, não sempre) a gerar mais militância e ruído, o apelo da tribo tende a funcionar mais com tribos mais extremadas.

Muitas tribos acham que estão a ser censuradas, repetem à exaustão a sua coragem por defenderem aquelas opiniões que poucos defendem. Mas, graças às redes sociais, hoje não exige grande coragem social defender qualquer opinião desde que tenha uma tribo qualquer ao seu lado. Hoje o que é verdadeiramente difícil é outra coisa: não alinhar sempre com a tribo mais próxima. Defender algo com que a tribo que se escolheu não concorde. Ou, pior do que isso, defender algo com que a tribo rival concorde.

É esse o desafio social dos nossos dias: rejeitar o tribalismo sem sentir o isolamento de quem acaba rejeitado por todas as tribos. A tribo raramente perdoa desvios porque a sua existência e capacidade de proteção depende de não haver desvios. A proteção mútua que atribuem uns aos outros depende de estarem sempre do mesmo lado em todas as questões. Um desvio, por muito pequeno que seja, é sempre visto com desconfiança. Dois ou três desvios e deixa de pertencer à tribo.

As pessoas têm uma ligação emocional à sua tribo. Todos gostamos de pensar pela própria cabeça, ou dizer que o fazemos, mas a formação de opinião também responde a estímulos emocionais. Até diria que boa parte da formação de opinião decorre de um estímulo emocional que depois a cabeça trata de racionalizar. É extraordinariamente difícil olhar para uma questão deixando de lado questões emocionais e a pertença à tribo é um dos factores emocionais mais poderoso (é um factor emocional tão poderoso que quando as pessoas entram em choque com a tribo, o amor se transforma em ódio, a tribo passa a ser o alvo a abater, mesmo que continue relativamente próxima). Por defeito, respondemos a qualquer questão emocionalmente primeiro, com os olhos da tribo, e só depois com a razão. Na maioria dos casos, a razão já não fica com a tarefa de decidir a posição sobre a discussão em causa, mas sim com a tarefa de racionalizar a posição que a emoção decidiu logo que iríamos ter.

A internet e as redes sociais trouxeram uma explosão de informação, o que teria sido fantástico se baseássemos as nossas decisões em factores racionais e tivéssemos capacidade de leitura e processamenteo ilimitadas. Como, pelo contrário, decidimos com as emoções e temos uma capacidade de processamento limitada, tudo o que a internet nos deu foi dados suficientes para podermos racionalizar qualquer opinião que a tribo nos diga para ter, e tribos com o tamanho suficiente para nos sentirmos sempre aprovados e não precisarmos de procurar conhecer mais nada. Não sei como isto poderá mudar, poderá levar uma ou duas gerações a adaptarmo-nos mentalmente a esta realidade. Até isso acontecer, o tribalismo seguirá, com consequências imprevisíveis.