Presidenciais

Estamos a poucos dias das eleições presidenciais e, por isso, achei por bem fazer um artigo de opinião sobre os candidatos à Presidência da República. Para não ser confundido com um desses comentadores “independentes” que tanto vagueiam pela comunicação social portuguesa, faço desde já uma declaração de interesses: sou liberal e vou votar Tiago Mayan Gonçalves.

VAMOS MUDAR DE IDEIAS, SR. PRESIDENTE MARCELO REBELO DE SOUSA?! - Arco de  Almedina

Marcelo, o Incumbente

Começando pelo Presidente incumbente, quero destacar desde já a forma leviana e presunçosa como Marcelo Rebelo de Sousa tratou estas eleições e, por acréscimo, a democracia. Desde uma relutância inicial para se candidatar, quando todos sabíamos que o ia fazer, até a uma campanha praticamente inexistente, sem cartazes e a abdicar do seu tempo de antena televisivo, mostrou uma certa sobranceria face aos seus adversários.

Nos debates, Marcelo foi, invariavelmente, superior. Anos de comentário televisivo dão-lhe uma vantagem enorme sobre os outros candidatos. Manteve sempre uma postura serena, amigável e até um pouco paternalista face aos seus oponentes. Tinha a lição bem estudada, e sabia o que responder às críticas que lhe faziam. Ainda assim, achei que teve um mau comportamento frente a André Ventura, ao falar de conversas privadas em público. Deixou-se levar pelas emoções e acabou por ter tido uma postura indecorosa, que não é comum a Marcelo. Ainda assim, destaco-o como o grande vencedor dos debates.

Ana Gomes: A importância do fator MRPP – O Jornal Económico

Ana Gomes, a Joia da Coroa

Ana Gomes vem para estas eleições como a grande adversária de André Ventura, e acaba por ser a joia da coroa da esquerda nestas eleições. É a única candidata de esquerda moderada que pode ambicionar ficar à frente do candidato do Chega e é, por isso, onde a esquerda tem apostado nestas eleições – mesmo sem o apoio oficial do PS, reúne apoios do Livre, do PAN e de vários membros do PS e BE.

Quanto aos debates, Ana Gomes mostrou sempre uma certa ignorância em sensivelmente todos os assuntos exceto a corrupção. Teve um discurso populista contra Tiago Mayan e Marcelo Rebelo de Sousa, falando de fantasmas neoliberais e acusando o atual Presidente de ser conivente com Ricardo Salgado, algo que lhe ficou muito mal. Nos debates com a esquerda, tentou manter uma postura mais convergente com os seus oponentes, incitando implicitamente a uma união à esquerda para as eleições – isto é, tentando que Marisa Matias e João Ferreira desistissem em nome da sua candidatura. Acredito que tenha dado um tiro no pé ao insistir repetidamente na ideia da ilegalização do Chega, uma vez que acaba por afastar alguns dos eleitores de centro que se encontram indecisos entre ela e Marcelo. Como não pode ser só dizer mal, terei de destacar a sua postura no debate com André Ventura. Face a um adversário agressivo e desrespeitador (já lá vamos), Ana Gomes manteve uma postura serena e firme, e penso que saiu muito a ganhar.

André Ventura admite acordo nacional se o PSD se radicalizar – O Jornal  Económico

André Ventura, o Populista

É difícil fazer uma avaliação à candidatura de André Ventura de forma imparcial, pela forma abusiva e desrespeitadora como abordou os debates, e pelo discurso autoritário e populista que utilizou nos mesmos, assim como em todas as entrevistas em que participou. Qualquer um que não se reveja naquele discurso tem dificuldades em aceitá-lo – embora seja imperativo que o faça.

Nos seus debates, André Ventura utilizou uma estratégia de radicalização. O líder do Chega sabe quem é o seu eleitorado, sabe quais as suas preocupações e sabe em que temas ele quer que pegue. Utiliza uma estratégia de debate à medida de uma população descontente e frustrada, descendo tão baixo quanto preciso para dar espetáculo – e obter visualizações. É difícil avaliar a sua prestação, na medida em que, neste caso, uma opinião pessoal não significa nada. As elites da comunicação social avaliaram-no como o pior candidato nos debates, mas a opinião das elites não vale de nada. Como escrevi no Twitter, quem gostava dele passou a adorá-lo, quem não gostava passou a odiá-lo.

Há que referir a forma deplorável como falou dos outros candidatos do início ao fim da campanha. Quero acreditar que pessoas descontentes mas mais moderadas não se tenham revisto neste tipo de discurso. Não pode valer tudo.

De um ponto de vista menos preocupado com os votos e mais preocupado com a democracia, André Ventura expressou opiniões que são, no meu entender, de cariz autoritário. “Ditadura de pessoas do bem” é um bom sound byte, mas é a mesma narrativa utilizada pelo fascismo – eu estou aqui para defender os bons, e para atacar os maus. É graças a um político com este discurso que, atualmente, Auschwitz é um foco de turismo. A verdade é que o termo “fascista” foi utilizado de forma tão leviana nos últimos anos que hoje em dia já é completamente desacreditada. Vamos ver se não estamos perante a história do Pedro e do lobo…

Europeias. João Ferreira será recandidato pela CDU

João Ferreira, o Constitucionalista

Vou começar para dizer que João Ferreira é, na minha opinião, o candidato de esquerda mais bem preparado para desempenhar o cargo e, não fossem as diferenças ideológicas, a quem daria o meu voto no domingo. O candidato do PCP mostrou, ao longo da sua campanha, um nível muito acima de qualquer outro candidato de esquerda. Uma candidatura séria, competente, e, a meu ver, o melhor candidato que o PCP podia escolher nesta altura complicada da sua vida política para estas eleições.

Nos debates, João Ferreira surpreendeu-me pela positiva e pela negativa. Em termos de conteúdo, mostrou uma seriedade e um respeito imenso (alguns até lhe poderão chamar obsessão) pela constituição, e mostrou ideias concretas que em nada tinham a ver com a demagogia bacoca de Ana Gomes e o vazio ideológico de Marisa Matias (já lá vamos). Pregou as ideias comunistas sem um radicalismo que afastaria imediatamente a esquerda mais moderada, mas de forma competente. Além disso, não mostrou uma aversão marxista à iniciativa e propriedade privada, nem fez a sua campanha como adversário de André Ventura.

Negativamente, terei de destacar a sua forma de debater. João Ferreira parece não ter o carisma de Jerónimo de Sousa no que toca ao discurso, e acaba por perder a atenção do público nos debates. Ainda assim, acho que pela sua postura saiu dos mesmos a ganhar.

Ficheiro:Marisa Matias, SomosBibliotecas.png – Wikipédia, a enciclopédia  livre

Marisa Matias, a Desilusão

Não tenho nada de simpático para dizer sobre Marisa Matias. Uma candidata que começou logo mal ao afirmar-se social-democrata (já temos tantos) e ao longo da campanha não mostrou qualquer conteúdo ideológico para além de uma candidatura feminista – que, sejamos honestos, não é o suficiente para uma candidatura à Presidência da República.

Esteve muitíssimo mal em todos os debates, sendo a única candidata que posso afirmar que perdeu o debate com André Ventura, sob qualquer ponto de vista. Apareceu mal preparada contra a direita, tendo mentindo quase compulsivamente nos debates tanto contra André Ventura como contra Tiago Mayan. Contra os outros social-democratas, Ana Gomes e Marcelo, os debates foram uma mera conversa de café com amigos com quem se discorda de algumas ideias. Frente a João Ferreira, recorreu mais uma vez à mentira, de forma a acusar o Partido Comunista de ser conservador e contra os direitos dos homossexuais.

Fez uma campanha anti-André Ventura e, penso que o melhor que poderia ter feito seria abandonar a sua candidatura pela de Ana Gomes.

Tiago Mayan Gonçalves, candidato à Presidência da República. "Quero  discutir uma visão de um Portugal mais liberal"

Tiago Mayan, a Revelação

Não vou encher isto de propaganda, até porque já disse que era o meu candidato, mas terei de realçar a enorme surpresa que foi Tiago Mayan. Um homem que ninguém conhecia, com uma capacidade de expressão limitada e com falta de carisma, acabou por conseguir fazer aquilo que é, para mim, o mais importante: expressar as suas ideias.

Nos debates não teve medo de olhar Marcelo nos olhos e apontar-lhe o seu populismo e péssimo mandato, contra André Ventura não hesitou em por o dedo na ferida no que toca às suas tendências autoritárias, e, contra a demagogia de Marisa, Mayan respondeu com factos concretos e desmitificou a ideia de que a IL quer acabar com a saúde pública.

Embora a sua oralidade não seja a melhor, demonstrou as suas ideias e defendeu aquilo em que acredita, e por isso merece a recente subida nas sondagens – veremos se se concretiza no dia 24.

Tino de Rans apresenta candidatura às Presidenciais nos Jardins do Palácio  de Cristal - Diário Distrito

Tino de Rans, o Calceteiro

Não dá como não sentir carinho por Vitorino Silva, mais conhecido por Tino de Rans. Um homem do povo, humilde e genuíno. Não é um candidato com uma agenda ideológica ou sequer com ideias concretas sobre como resolver os problemas no país, no entanto terei de destacar o debate com André Ventura onde, de forma solene e humilde, retirou pedrinhas do bolso e fez o seu famoso discurso das “pedrinhas de todas as cores” numa verdadeira lição de humanismo ao líder do Chega.

Por fim, quero aproveitar para fazer um último apelo ao voto. Não a nenhum candidato específico, mas a que votem e exerçam o vosso direito democrático. Não há nada mais indigno que deixarem os outros escolherem por vocês.

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