O Problema Da Militância Online

Recentemente o Diogo Faro, autoproclamado ativista dos Direitos Humanos, foi cancelado por ter participado numa festa de ano novo durante a situação pandémica em que vivemos, contrariando as medidas de contenção vigentes. Foram divulgadas fotos de Diogo numa aglomeração com várias pessoas sem máscara, num local fechado. A meu ver, o principal motivo de estas fotos terem ficado bastante populares e terem levado a um cancelamento em massa, deriva dos famosos “telhados de vidro” de Diogo, um constante ativista desta matéria e que advoga para que as pessoas fiquem em casa e cumpram as medidas de contenção. 

Esta situação toda faz-me pensar numa famosa frase de Marco Aurélio:

“Não perca mais tempo discutindo sobre o que um bom homem deve ser. Seja um.”

E eu penso que esta frase resume não só a situação em que Diogo Faro se meteu – este que agora se vitimiza – mas também o resumo daquilo em que a militância online se tornou. Aqui, quando falo de militância, não procuro discriminar a militância de alguma luta em específico, mas sim o próprio ato de militar (Ou quem prefira “lacrar”, estes termos ainda são muito novos para mim e para a própria língua portuguesa). A militância tornou-se nisto, pessoas que por sede de likes abandonam a razão e o bom senso e que disparam críticas para todos os lados sem olhar primeiro para a sua base. Sem olhar primeiro para os próprios telhados.

A natureza das redes sociais, principalmente do twitter, mas também do facebook, e no caso do Diogo Faro até do Instagram, destrói completamente a nossa cabeça, seja a nível social, seja a nível de bom senso. Faz-nos ser viciados em likes, porque sentimos que quantos mais likes temos, mais aprovação recebemos, e esta aprovação desperta dopamina nos nossos cérebros que faz com que fiquemos rapidamente viciados em aprovação. E é daí que progressivamente surge esta necessidade de ser um justiceiro das boas causas online; é algo fácil, imediato e sem custos, e toda a aprovação que desejamos vem embalada no formato de um coração. 

Alguns apenas se limitam a dizer o que as pessoas querem ouvir, sem necessariamente refletir sobre o que dizem.

Sentimo-nos importantes por termos bastantes retweets e likes nos nossos tweets, sentimo-nos os donos da razão, pessoas incríveis. E cada vez mais ignoramos as causas, ou a razoabilidade destas, e só nos preocupamos em soltar frases de efeito, argumentos e críticas sociais intensivamente.

E eu não quero fingir que não faço parte deste problema. Eu também sou um consumidor ávido do Twitter e reconheço que o meu vício não é saudável de todo. O problema é quando abandonamos por completo a razão e dedicamo-nos apenas a tentar problematizar o que não tem problema, seja porque não entendemos o contexto do que criticamos, seja porque o desvirtuamos em favor do nosso argumento. Viramos pessoas nocivas que abandonam os seus valores e bom senso em prol deste ego que tanto nos infla o peito. 

No final de contas, somos todos seres humanos. Somos corruptíveis e inerentemente estamos destinados à imperfeição. A nossa racionalidade é limitada, é natural errarmos. Por vezes falhamos na defesa dos nossos valores, independente do nível do erro (não me cabe a mim julgar os erros do Diogo e isso só iria atrapalhar o meu argumento que se mantém, seja o erro grave ou não). O problema é que quando criamos a nossa imagem à volta das lutas sociais pelas quais advogamos e crescemos com este monstro de aprovação a moldar-nos, é apenas natural que todos os olhos estejam a olhar para nós.

E quanto maior a subida…

Eu sei que usei a polémica Diogo Faro como uma grande bengala para falar de algo muito maior, que de certa forma ele representa muito bem: os militantes de internet. Este é um problema que afeta todos os utilizadores habituais desta bolha social que é o Twitter. Todos nós somos afetados por este vício em aprovação, claramente em diferentes escalas. Acima de tudo, é importante entender que há vida lá fora e que na vida real ninguém verdadeiramente liga para os discursinhos que usamos para ganhar um par de likes numa rede social; não somos mais nem menos importantes por isso. É também importante ter noção dos telhados aos quais vamos atirar pedras e, se o vamos fazer, convém proteger os nossos. 

Para terminar, quero sublinhar que ser boa pessoa (Inicialmente em vez de boa pessoa ia usar o termo desconstruído, mas ao refletir percebi que o ato de militar transcende esses termos) demonstra-se em atitudes e não em discursos. Antes de nos preocuparmos em discutir como uma pessoa boa deve ser, devemos ser uma.

Revisão do texto feita por Ana Cardoso.
Comments from Mastodon: