Bitcoin, precisamos de falar

Toda a gente adora uma boa história. E se a história envolve alguns elementos que nos são vagamente familiares, ainda melhor. É o que acontece com o bitcoin. Como diz Robert Schiller, é uma constelação de narrativas: Vai buscar narrativas já antigas como o hack ético, anarquia, um futuro tecnológico, justiça económica e tudo embrulhado numa aura de misticismo sob o anonimato do criador.

São alguns destes temas que puxam pessoas para dentro do mundo cripto. Todos gostamos de ouvir uma boa história e depois contá-la, criando-se assim o efeito rede que explica muito da subida do preço dos últimos anos.

O significado de bolha é muito evasivo e ambíguo e não costuma ser muito bem compreendido. Quando pensamos numa bolha, o pensamento que vem à nossa mente é o de um objeto que cresce lentamente, cada vez mais e exponencialmente antes de atingir o pico e estourar. No entanto, quando falamos de mercados financeiros, gosto da definição de Brunnermeier: “Um grande e longo erro de avaliação de preços ativos financeiros ou reais”. Uma espécie de situação onde “o imperador vai nu”.

Nesta altura penso que todos sabemos os problemas que temos nas economias ocidentais e a tese por trás do Bitcoin, mas para quem não sabe vamos resumir da seguinte forma: O excesso de liquidez e política por parte dos bancos centrais depois da grande crise financeira criou uma “largesse” em todos os activos financeiros. Obrigações, acções, imobiliário; é só escolher.

A comunidade bitcoin criou uma narrativa à volta desta tese, muito parecida à que os gold bugs usavam contra os bi-metalistas durante o padrão ouro. Há um inimigo (os bancos centrais), um problema (a desvalorização das moedas, bolhas em todos os activos e inflação) e uma solução (Bitcoin). A lógica por trás disto parece-me bastante forçada, por isso vamos por partes:

Blockchain

A tecnologia do Bitcoin é realmente inovadora e com potencial de uso para revolucionar diversas indústrias. Por ter resolvido o problema do general bizantino e do duplo-gasto, isto não faz com que o Bitcoin seja o substituto das moedas Fiat no futuro, nem a próxima moeda de reserva mundial.

Os governos jamais abrirão mão da senhoriagem

Ou seja, o lucro que os governos fazem pela emissão de moeda, que é dado pela diferença entre o valor de face de uma nota (digamos 500€) e os custos de produção (digamos 0,05€). A senhoriagem aplica-se a moedas (custo do metal e cunhagem), notas (custo do papel e tinta) e digital (sem custo). A senhoriagem dá aos governos uma “vantagem de pioneiro” no jogo da inflação, já que imprimem e gastam primeiro. Este tipo de políticas monetárias abusivas resultam da falta de independência entre os bancos centrais e o governo, e apesar de os bancos centrais serem uma invenção relativamente recente, podemos recuar a qualquer civilização para ver que a cunhagem de moeda sempre esteve nas mãos do Estado.

O Paypal, a Tesla e outras instituições já entraram no jogo

A tese que fundamenta a subida meteórica do bitcoin em 2020 e 2021 é a de que, ao contrário da subida de 2017, esta deve-se às instituições e não aos pequenos investidores. A Tesla recentemente investiu 1500 milhões de dólares e a tendência é que mais empresas se sigam. Mas as razões por trás disto parecem-me mais ter a ver com o tema fiscal do que propriamente com uma aposta na tecnologia. Não é tão difícil para a Tesla implementar uma secção no site que permita pagar em Bitcoin ou Dogecoin, no entanto a promessa ficou no ar e já passaram 2 semanas. Depois os constantes tuítes a promover a Dogecoin do Elon Musk são bastante estranhos. Porque faz isto com uma moeda criada por brincadeira? Para ganhar dinheiro? Para se divertir? Porque gosta da tecnologia? A mim parece-me um esquema para fazer uns milhões enquanto se diverte com uns tuítes. Este tema das empresas terem criptomoedas na sua posse vai de certeza chamar a atenção dos governos, já que passarem por caixa sem pagar impostos não faz parte das regras do jogo.

Os governos podem tornar a posse e negociação de criptomoedas ilegal

Uma moeda descentralizada que escapa aos governos e bancos centrais não vai ser tolerada, e estes farão tudo o que estiver ao seu alcance para manter o seu poder e privilégio. Uma proibição não é uma ideia tão lunática como muitos pensam. Os governos já o fizeram no passado com a proibição da posse de ouro durante o governo de Franklin D. Roosevelt. Mais recentemente, o episódio da GameStop levou a Robinhood a proibir a compra de acções e a mudar as regras a meio do jogo. Ou a história com o XRP, onde o agente regulador acusou a empresa de fraude. Isto dá algumas pistas no sentido em que o espaço não vai ficar muito tempo sem regulação. Algo similar pode acontecer com as empresas que compraram Bitcoin; a agência regulatória pode confiscar o bitcoin ou obrigar a vendê-lo. O risco existe e não deve ser ignorado.

Terrorismo e lavagem de dinheiro

Isto é um argumento que muita gente usa para descredibilizar o Bitcoin. Não faz muito sentido, porque se um criminoso vê a sua transação registada na rede, esta torna-se numa prova para ser incriminado. Afinal de contas, o bitcoin não é assim tão anónimo. Dólares, euros e yens são as moedas mais usadas no mundo do crime, mas os bancos centrais jamais admitirão isso nem dirão publicamente que a sua senhoriagem está posta em cheque por uma moeda descentralizada. Farão precisamente uma associação das cryptomoedas com o crime, tal como Janet Yellen (secretária do tesouro americano) ou Cristine Lagarde (presidente do BCE) já referiram diversas vezes.
Um argumento semelhante foi usado para eliminar a nota de 500€ há poucos anos. Na verdade, não foi só para combater a lavagem de dinheiro, já que dinheiro vivo é o principal obstáculo quando tens taxas de juro negativas. Guardar notas preserva o poder de compra a uma taxa de juro zero; quanto menor a denominação mais espaço ocupa.

As tuas criptomoedas serão taxadas

Como disse Mark Twain, só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. E não é o facto de o Bitcoin ser descentralizado que vai evitar com que seja taxado. De facto, quanto maior o problema com as moedas fiduciárias, maior a probabilidade das criptomoedas serem taxadas, seja directamente ou indirectamente via inflação (o imposto invisível explicado pelo privilégio da senhoriagem). Não nos enganemos, um imposto sobre as criptomoedas não seria mal recebido pela população. Seria uma medida populista como taxar os ricos. Agora junta isso a taxar criminosos e terroristas. Janet Yellen até disse recentemente que estaria a ponderar taxar ganhos não realizados. Isto seria um tiro no pé se fosse realizado de forma geral, já que seria rebentar toda a bolha em que estão os mercados. É curioso que Michael Saylor (CEO da MicroStrategy) ultimamente evita falar em criptomoedas e refere-se a estas como criptoactivos. Medo da regulação ou espera por um regime fiscal diferente?…
De qualquer das formas, não sejas ingénuo ao ponto de achar que podes fugir aos impostos com cryptomoedas.

As moedas digitais dos bancos centrais não são positivas para as criptomoedas

Já tinha discutido este tópico no meu blog: os governos detestam concorrência. Estas moedas centralizadas permitirão que os governos tenham mais controlo sobre questões de impostos ou para impedir certos comerciantes de participar no sistema. Se os governos tornam o Bitcoin ilegal, controlar a entrada e saída das exchanges como a Coinbase será tão fácil como tirar o doce a uma criança. DeFi? Pode ser uma possível escapatória, mas seria sempre um mercado negro e a maior parte dos cidadãos não quer estar envolvido em actividades ilícitas.

O valor intrínseco

Este é um argumento usado por muita gente que não acredita nas criptomoedas. O valor intrínseco do dinheiro é apenas a confiança depositada por uma sociedade. Aceitamos receber papéis coloridos pelo esforço do nosso trabalho porque temos a confiança de que com estes podemos amanhã comprar comida, gasolina ou pagar a renda de casa. No entanto, há papéis que transportam mais confiança do que outros. Ninguém em Portugal aceitaria de bom grado receber o seu salário em bolívares venezuelanos ou notas de monopólio. A questão é que o valor de tudo é subjectivo e criptomoedas e moedas Fiat não têm qualquer valor intrínseco a não ser a confiança. Um bem físico é diferente; uma casa sempre servirá para ser habitada ou uma barra de ouro poderá sempre ser derretida e usada como joalharia, por exemplo.

A falácia da escassez

Tudo é escasso neste mundo. Até o papel e a tinta onde os bancos centrais imprimem as notas são escassos. Uma garrafa de vinho de uma colheita especial também o é, ou até um diamante, ou um quadro de Picasso. No entanto, tudo é uma questão de perspectiva em relação ao Bitcoin. Podem haver apenas 21 milhões de bitcoins, mas podem existir 21 milhões de criptomoedas criadas do nada. Isto leva-nos a outra narrativa que é conhecida por maximalismo, ou seja, só pode existir uma criptomoeda. Neste caso o Bitcoin. O Elon Musk falou sobre este perigo quando decidiu promover a Dogecoin, mas os maximalistas não gostam de concorrência e acham que nada deve colocar em perigo a hegemonia do Bitcoin. Michael Saylor é um destes activistas, que diz que outras criptomoedas são projectos centralizados e inacabados e que o Bitcoin é a única alternativa.
Isto não faz qualquer sentido porque em qualquer mercado livre há concorrência e competição. Seria a mesma coisa que dizer que a única possibilidade de transporte são carros a gasolina, quando o importante no transporte é uma deslocação de ponto A a ponto B eficiente, barata e, se possível, ecológica. Na questão de pagamentos digitais ou reserva de valor é a mesma coisa, o importante é o fim e não o meio.

Mesmo o argumento da lei de Metcalfe que diz que “o valor de um sistema de comunicação cresce na razão do quadrado do número de utilizadores do sistema” cai por terra se amanhã, por exemplo, a Apple decide lançar a Applecoin ou se o Facebook decide a lançar a Libra (porque será que nunca mais se ouviu falar nisto?). Estas empresas têm uma quantidade de utilizadores enorme e têm todo o know-how para desenvolver uma criptomoeda.

Voltando à lei de Metcalfe que faz sentido numa rede de telecomunicações, não está muito claro se funciona numa reserva de valor. Ou seja, se a rede se expande cria procura, levando a um aumento do preço. Mas será que a procura continua a ser exponencial ao preço nos 50 mil ou nos 100 mil dólares por exemplo? Nas criptomoedas, a lei da procura e da oferta funciona melhor do que a lei de Metcalfe.

HODL e o dilema do prisioneiro

Pelas redes sociais isto tornou-se um mantra na comunidade bitcoin. HODL significa “Hold on for dear Life”, ou gente que não pensa em vender os seus Bitcoins. Não faz muito sentido a não ser que se queira ter um bitcoin como um artigo de coleção, o que também não faz sentido porque é algo digital. A ideia por trás disto é criar uma comunidade que jamais venderá e comprará cada vez que o preço caia. Mas mais uma vez é contraditório. Um investidor não tem uma relação emocional com os activos que compra. Eu tanto compro ações da Apple hoje, como as vendo daqui a uns meses com lucro. Sem qualquer tipo de emoção associada.

FOMO (Medo de perder o comboio)

Quando vês os teus amigos e vizinhos a enriquecerem, não querer ficar para trás é um sentimento humano. Isto acontece sempre que os preços disparam e não queremos ficar para trás. Na verdade, o que acontece é que os últimos a chegar à festa compram demasiado tarde e a um preço elevado. Já aconteceu em 2018 com as criptomoedas, e a própria história das finanças está cheia destes exemplos. Os melhores investimentos são aqueles em que vocês investem 50€ e os vossos amigos vos chamam malucos. Andar a correr atrás da manada é coisa para cães.

Especulação Lord Keynes disse que as bolhas se mantém irracionais por mais tempo do que ele conseguia ficar solvente. Não aponto nenhum topo e até acho que os preços podem duplicar ou triplicar no ponto em que estamos neste momento (48000$). Durante as subidas, tudo é uma festa, tuítes a cada milhar que o Bitcoin ultrapassa, lamborghinis para todos, entre outras coisas. Isto é conhecido como o Wealth effect ou efeito de riqueza, que leva sempre a complacência e a excessos. Jim Rogers tem uma frase bastante interessante que diz que as manias primeiro destroem quem vai contra elas e por fim quem está com elas.

Ouro e Bitcoin

Normalmente comparam estes dois activos, quando eles têm pouco a ver um com o outro. Satoshi Nakamoto inspirou-se em várias propriedades do ouro para as adaptar ao Bitcoin, e é comum ver representações gráficas do Bitcoin como uma moeda de ouro, ou gente que faz correlações entre os dois. No entanto, diferem bastante. O gráfico do Bitcoin é mais parecido com o das acções da Tesla do que com do ouro. Enquanto que o ouro tem uma longa história no mundo financeiro como divisa, o Bitcoin é um recém chegado e sem qualquer prova dada. Como exemplo, podia ser dada a seguinte analogia: dão-vos a escolher entre dois transatlânticos para ir para os EUA. Um deles tem tecnologia antiga mas com provas dadas (ouro) o outro é uma tecnologia recente mas por testar (Bitcoin). Qual escolheriam?

Navegar por mares desconhecidos

O ouro já ultrapassou diversas crises e depressões ao longo da história. Sabemos como se comporta nos diversos ciclos económicos e sabemos que é uma espécie de obrigação do tesouro que rende 0% de juros. Geralmente, segue inversamente as taxas de juro reais e o valor é relativamente estável, não tem volatilidade elevada e tende a manter o valor de compra. 1 onça de ouro no império romano comprava uma boa toga e um bom par de sandálias. Hoje com 1500€ compramos um bom fato e uns bons sapatos. Isto é uma reserva de valor ao longo do tempo. Um fã de Bitcoin pode argumentar que os retornos do bitcoin foram muito maiores nos últimos 10 anos, mas se isso é um argumento para justificar uma boa reserva de valor, então ações também são reservas de valor porque têm bons retornos ao longo do tempo. O que o Bitcoin precisa de provar é se consegue navegar os mares turbulentos de uma recessão. Relembro os mais distraídos que há 10 anos que não temos uma crise financeira, e que em Março, quando se instalou o pânico nos mercados, o Bitcoin foi das primeiras coisas a ser vendida. O ponto é: será que durante um momento de pânico nos mercados o Bitcoin se mostra resiliente e um verdadeiro refúgio, ou será visto como um activo de risco extremamente volátil que deve ser logo despachado?

Conclusão

É certo que temos um problema com o nosso sistema financeiro. Desde a crise subprime que os bancos centrais têm aumentado problemas de desigualdade e destruído o poder de compra da classe média. No entanto, é um salto muito grande dizer que o bitcoin é a solução para tudo isto. A subida de preço não é um factor indicativo de que o Bitcoin será a próxima moeda de reserva ou a última maravilha da humanidade. O passado já mostrou que as bolhas tendem a rebentar quando menos se espera, e hoje tudo é uma bolha. A Tesla é a maior empresa de automóveis a nível de capitalização e vende 500 mil carros por ano. A busca desesperada por rendimento e juros criou bolhas em todos os sectores. Até onde podem ir? Ninguém sabe, assim como também não se sabe quando vão rebentar.

O meu conselho para quem quer comprar Bitcoin? Comprem 2 e vendam 1 quando o preço duplicar. O resto é tudo ganhos sem risco.